O
telefone tocou e eu ainda estava deitado. Não quis atender. Acender um cigarro
na minha cama era prazeroso demasiado para me conter em falar com alguém. Não
me importava, embora pudesse ser o cara do aluguel me cobrando. Quatro meses de
atraso não é atraso. Atraso é esperar meses por uma consulta derradeira, tipo
nesses hospitais públicos, afinal é uma vida que está em jogo, e neste caso o
cara só vai embolsar uma grana minha que na realidade não existe nessa
realidade... Hm... estou apreciando a um concerto: o tique-taque do relógio, a
goteira, meu arfar, os vizinhos trepando e a fumaça do meu tragar fazendo a
mágica dum gelo seco... até que dá uma música legal, como esses rocks
psicodélicos com os caras fumando mil e uma drogas pra morrerem engasgados com
a própria overdose e tudo mais... Aquela menina do café da esquina até que era
bonitinha. Aposto que o batom escarlate manchou a xícara. Ela bebia aquilo com
uma serenidade impar, era quase poético vê-la desfrutando daquele negro quente.
Pensando bem, ela era bem bonita... grandes olhos mel, pele alva, cabelo liso
castanho, nariz fino, lábios finos, face corada, as unhas bem pintadas – era
roxo... eu a desejava desde seu all-star branco até seu sorrir nunca visto por
mim, mas acho que o café negro quente era mais importante que meus olhos... eu
talvez não fosse para aqueles belos bicos que se deliciavam com a xícara e com
o café da xícara. Uma pena, o all-star dela até que combinava com o meu... e
ainda, do que apenas olha-la adianta senão embriagar meu encantamento?... eu gostaria de ser
aquela xícara que tocava os lábios a mim não pertencente.
Chuva
– de novo... Agora as moscas se acumulam na visão que tenho do teto rachado. O
deleite que o fumo me traz num clima desses, é surreal. E mais surreal ainda é
acreditar que esse tabaquinho realmente mate... talvez as coisas boas matem-nos
e Deus queira que sejamos caretas, o céu seja uma reunião de vegetarianos e
veganos discutindo como os agrotóxicos interferem na pureza do vegetal – ARGH.
Os doidos, os picaretas, os caras-de-pau são quem mandam no mundo... os
pauleiras... os serenos... as
“metamorfoses ambulantes” são quem vivem a vida de verdade... pra que regras? E
o que elas são? Ninguém o sabe... se Deus fosse bom, como dizem, seriamos
imortais e viveríamos deitado enquanto fumamos um cigarro infinito num dia
cinza de chuva na cidade preto e branco. Deus talvez queira nos dividir com o
Diabo como divide-se e troca-se figurinhas...
e já que as coisas como: fumar, desejar uma mulher, brincar com nosso
sexo, beber e comer muito são ruins e a
que ruindade é o caminho do inferno, o inferno e o Diabo devem ser do caralho –
I'm on the highway to hell. E os que para o céu forem, ficarão a
discutir sobre a mancha da camisa, o chá muito açucarado... farão das frescurices
de uma moça a arte dum Louvre... mas penso: e os pobres esmagados pelo mundo?
Irão pra onde? Bem... quem sabe, talvez, para um universo-alternativo-utópico-paralelo
onde nunca faz calor demais nem frio demais. Onde há uma casinha bem regrada
para todos. Onde das árvores brotem todos os tipos de alimentos e onde a doença
seja apenas mais uma lenda de horror... onde todos sorriem. Onde não haja
religiões pra amarrar ou trabalho para escravizar... apenas o bom amor
recíproco e a alegria tatuada em cada alma que um dia sofreu.
Que
sono! Sono que cai em mim como a chuva cai no asfalto – lá fora. Tem alguém na
porta. Deixe-o, talvez ele ache que eu tenha morrido; e, assim, para o inferno
onde tudo é do caralho, eu parta.
