A brisa que a noite sopra é fria e suave – feito teus lábios,
a mim, irreais. Pela janela observo a cidade enxaguada pelas pequenas luzes das
ruas. As escassas estrelas que reluzem opacamente demonstram nosso vil
sentimento de indiferença à beleza da natureza, escancarando o avançado
desespero do progresso: onde poluímos o ar, poluímos a paisagem, destruímos a
cor e manchamos a nossa alma – crime hediondo...
Ao longe, um funk delira em loucos timbres autômatos, além
de latidos, esdrúxulos gritos humanos e o motor dos carros, consolidando o usual
contraste ao sentimento de acolhimento comum às calmarias das madrugadas...
A Lua está cheia, rainha, exercendo seu protagonismo no
firmamento solitário, a jorrar teus raios e a abraçar seus ordinários
espectadores, alimentando seus sentimentos e lembrando-os que a solidão é uma
ilusão, pois ela está lá fora e aqui dentro, conosco: a lua lá, a saudade aqui.


