quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Doido Chico (Parte II)

Meu nome é Chico Arruda Mendes, ou só Chico – espero que seja esse mesmo. Já me chamaram de Zé, José, Carlos, José Carlos, Bahia, Paraíba, Ceará, Piaui... Mas raramente de Chico, engraçado me chamarem assim, sou do sul.
Nasci numa família de classe alta. Pai militar, com um cargo de poder na ditadura, e mãe professora de universidade. Tive tudo do bom e melhor. O melhor ensino, as melhores escolas. Sempre usufrui das vantagens da classe social que eu pertencia. Estudei economia na Europa, me formei e voltei ao Brasil. Ingressei diretamente num cargo alto dum grande banco, por indicação de um amigo de meu pai – não me recordo o nome do banco, nem do tal amigo, a memória ruim deve ser por conta da minha loucura. As coisas eram tão fáceis naquele tempo, tão vis. E eu... Eu era desprezível... Meu pai morreu, e mamãe também.

Um rapaz me gritou do balcão, interrompendo-me:

Vai bebe ?

Balancei a cabeça negativamente. Olhei o relógio na parede, o ponteiro grande estava quase no seis, e o pequeno quase na metade do três... Três e vinte oito. Chovia.
Eu não tinha um puto no bolso, mas não queria comer. Havia conseguido sete paus dançando – pois é, dançando – no farol e pedindo esmola, me alimentei como deu.

Voltei a mim:

O começo desta nova vida foi complicado, eu era muito arrogante, exigia que os outros mendigos não se aproximassem de mim, como se eu fosse superior a eles, mas depois de um tempo percebi que estava na mesma privada, lutando para não afundar mais ainda em meio a tanta merda. Tinha vergonha de pedir esmola, tinha nojo da minha aparência e repugnava meu cheiro... Mas esse processo foi bom. Bom para eu pensar, refletir, aceitar e talvez melhorar, e hoje... Hoje, cá estou, cheirando o mijo e a cerveja, e cheirando a mijo e cerveja.
Hm... Sempre achei engraçado pedir esmola. É trabalhoso retirar algo de alguém através da caridade, o ser humano é muito egoísta, não mexe um músculo para ajudar alguém... Se bem que não posso culpá-los ou criticá-los, pois eu era assim também. Estão sempre com pressa, ou sem grana, ou “sem grana”... Já cheguei a ser atropelado por teimosia... Mas o barato da coisa é como dão a contribuição. Fazem uma faceta cínica, misturando incrivelmente o mau humor à felicidade, e no fundo, sentem-se como se fossem obrigados a realizar uma boa ação para “saciarem-se espiritualmente”... Como se dar cinquenta centavos fosse a sua missão de paz. Mas de qualquer forma, eu sempre retribuía saudando-os. Sou um mendigo de modos, talvez até excêntrico. Eu saudava-os tirando meu chapéu e fazendo uma cordial reverencia, geralmente isso fazia-os rir. Eu não gostava daquela coisa mecanizada de dizer: “Deus te abençoe”... Se fosse para agradecer, deveria ser espontâneo, altruístico.
Nunca me envolvi com nenhum tipo de droga, e mesmo sendo fácil consegui-la no submundo que vivo, e um naco da minha humilde casta usarem-nas, eu nunca me envolvi. Eu bebia, mas não considerava o álcool uma droga, mas sim um refúgio, um esconderijo frio e quente, claro e escuro, bonito e feio; confuso, mas escondia-me da realidade. Havia vezes em que eu passava o dia inteiro bebendo e dormindo. Bebia e dormia nos dias difíceis, nos dias chuvosos, nos dias tediosos, nos dias de fome, nos dias comemorativos, nos dias normais, de dia, de tarde, de noite. Pelo menos uma dose diária sempre percorria meu sangue. Parece que a única coisa que nunca faltaria a um mendigo até o fim dos tempos seria a bebida. Ela fazia parte do meu ser, mas eu quase nunca deixava de trabalhar, estando sóbrio ou mamado... Eu sempre queria beber mais, e eventualmente, comer.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Doido Chico (Parte I)


Bem, eu vivia na sarjeta... Espere. “Bem” não é a palavra certa. Talvez “mal”... Hm... Isso... Mal! Mal, eu vivia na sarjeta. Na verdade eu era a sarjeta. Residia nas ruas, sempre vagabundeando a conseguir uns trocados para viver.  Era uma verdadeira merda, mas uma bela aventura. Com o tempo, acabei gostando da coisa, e mesmo se não gostasse, eu não tinha escolha. Eu fui um dia esses senhores que ostentavam seus ternos, sapatos bem lustrados, belos carros e lindas casas, agora, restava-me pouco mais que minha pequena dignidade. Não era muita coisa, talvez minha barba valesse mais que minha dignidade, ou até mesmo meu velho chapéu valesse mais que minha dignidade.
Estou nesse exato momento numa mesa de boteco dentro da minha cabeça ponderando sobre a vida, a minha vida... Gozado, essas porcarias de estabelecimentos sempre cheirarem a urina e cerveja. Acho que eu cheirava àquilo... E os clientes, quando não estão bebendo e tagarelando porcarias, estão mijando, se não estão mijando, estão tagarelando e bebendo porcarias... Mas não importa. Hm... Deixa-me pensar... Faziam – dez... Vinte... Um... Dois... – vinte e cinco anos que eu esteva neste estado. Neste estado de espirito, neste estado de sanidade, de gatunagem, de não ter um teto... Na sarjeta. Eu com certeza havia endoidecido nesse tempo, mas todos endoidecem... E afinal, o que é não ser doido? Um bom cargo? Um carro? Uma casa? Casamento? Filhos? Família? – Argh – Tudo isso me enjoava, deixe para lá.
Ah... Já viajei muito, ainda viajo muito, mas não muito quanto antes. Estou velho, cinquenta e sete ou oito, ou nove anos... Sei lá, mas estou velho. As pernas não são ágeis como antes, minha visão não é certa como antes, meus pulmões não funcionam como antes, nada é como antes. Nunca fumei, sempre bebi. Já fui de tudo e de todos, já fiz tudo. Garçom, dançarino, puto – ainda o sou, mas de outro tipo -, palhaço, vendedor, malabarista, vigarista, flanelinha, músico, engraxate, gari, escravo, homem, mulher e até bancário... Sim, bancário, eu tinha grana, bastante grana. Minha função era foder os pobres e rir com gosto de suas desgraças. Já tive muito, agora, nada.

Foi bom ter endoidecido...

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

2027 (Parte final)

Abri os olhos, a vela estava no seu fim e ainda estava escuro. Eu dormi, e devo ter sonhado com algo, lembro-me apenas de alguns flashes e fios de lembranças... Não devia ser nada de importante. Pensei em prosseguir com a gravação, mas uma ideia que me consumia as entranhas desde o fim da guerra veio à tona. Terminei a gravação, acendi outro cigarro. Levantei-me, deixei a fita em cima da poltrona, abri a janela e sentei nela. Fazia muito frio, olhei para baixo e vi a pura escuridão. Lembranças e recordações ofuscavam aquelas trevas.

Agora percebo o valor dos carros indo e vindo, das tempestades de dezembro, da barulheira infernal que agora traria paz a meu espírito, das pessoas nauseantes que hoje me aliviariam, da atmosfera cinzenta que hoje daria cor à minha enfadonha existência... Nada mais disso havia. Prevaleciam apenas as trevas e o abismo criado por mim.

Agora vejo até onde a ganância, o ódio, a discórdia, a ignorância, a soberba pode nos levar. Chegamos nesse mundo pensando sermos donos de tudo, e que éramos os senhores da Terra. A Terra é a dona da Terra. Nunca compreendi as guerras objetivando a paz, nem a destruição para o progresso. Tudo isso é incoerente, e o fim. é o resultado mais coerente dessa incoerência. Não existe mais Deus, tampouco deuses, não existe fé, nem força. Apenas o saudoso e inevitável fim.

Será que minha vida tinha valido à pena? O que dela havia feito? – Pensei. Moleque tímido aos dez. Aluno dedicado e preguiçoso aos dezesseis. Vagabundo e bêbado aos dezoito. Jornalista, alcóolatra, libertino e fumante aos vinte e três. E agora, o que restou?  O que fui? O que serei? O que há nesse jogo de azar que é a vida? Para que jogá-lo, se o fim é sempre o mesmo para todos? Não sei. Ninguém nunca sabe, ou jamais soube. Céu? Inferno? O nada?

Não havia mais nada a pensar. Não queria pensar em mais nada. Comecei a cantarolar uma letra de música que minha vó cantava para mim quando criança, ‘Hey Jude’, era seu nome. Enquanto rasgava os versos, meu corpo tremia de frio. O cigarro estava na metade, traguei-o.

Eu poderia voltar para dentro, onde era quente – ou pelo menos mais quente que ali –, onde havia meu vinho, a minha poltrona velha e surrada... O meu breve conforto. Ou poderia mergulhar na escuridão; irresistível escuridão. Meu corpo clamava a voltar, minha mente me segurava a ficar.

Estava decidido. Uma última tragada, um último adeus. Meu corpo tremia. ”Tchau” – balbuciei inutilmente com uma lágrima nos olhos. Olhei para baixo, larguei o fumo. Não havia mais sentido viver para viver, e afinal, eu morreria em breve de qualquer maneira. Tudo vacilou, e fui de encontro àquela escuridão fria, crua...

terça-feira, 12 de agosto de 2014

2027 (Parte 5)


Voltei a sentar na poltrona, me pus a pensar, pensar e pensar. Comecei a escrever. Eu tinha o estranho hábito de escrever minhas matérias primeiramente no papel, e depois passá-las ao computador. Gostava de ver meu garrancho, as linhas tortas, os traços estranhos e tatear o lápis. Sentia-me como um artista. Um gole de uísque. Tentei algo:

“Terça-feira, 25 de agosto de 2015...”.

Comecei errado – cacete. Amassei a folha, tentei de novo:

“As forças armadas americanas chegaram à Berlim na manhã da última segunda-feira, 24, para juntarem-se às tropas da União Europeia. Está previsto...”.

Mil coisas passavam em minha cabeça, não conseguia me concentrar totalmente no que estava escrevendo. Recomecei:

“As forças armadas americanas chegaram à Berlim na manhã da última segunda-feira, 24, para juntarem-se às tropas da União Europeia. Está previsto que as forças armadas brasileiras cheguem nos próximos dias para reforçarem e intensificarem os ataques no ponto mais acessível a Rússia, a confusa Crimeia...”

Dessa vez fluiu, escrevi o bastante para talvez agradar o querido editor – um homenzinho gorducho de trejeitos e tiques estranhos, difícil de agradar. Pude explicar processos políticos e econômicos delicados, como o fechamento do mercado externo entre os países de cada lado da guerra e seus déficits. A possível imigração livre de povos aliados para o Brasil, alguns pontos positivos e a certeza dos problemas que isso causaria. As revoltas sociais que por ventura viessem a ocorrer. As medidas que o governo recém-eleito talvez terá de tomar ante a situação, e as possíveis consequências de todo esse processo para o futuro do Brasil. Minha vaidade considerou tudo o que foi escrito, bem sintetizado e explicado. Comemorei com mais um gole de uísque.


Mandei o artigo por e-mail, não havia mais nada a fazer. Fitei a janela, observei a chuva. Quase adormeci...

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

2027 (Parte 4)

– “Tropas americanas desembarcam na Alemanha e na Índia, os ataques...”.

Acordei de súbito, assustado pelo volume alto da TV, e... Puta merda, eu dormi! Não podia ter me dado a esse luxo. O mundo perto do fim, e eu cheirando a uísque, babando, com a cabeça doendo e sem matéria alguma para entregar ao jornal. Sai de cima de alguns rascunhos que estavam sobre a mesa – nada importante. Eu precisava fumar. Chovia lá fora, mas eu queria abrir a janela mesmo assim, ela ficava à direita da minha poltrona. Segurei-a – era daquelas de correr –, sua base estava úmida, a forcei para cima... Mas não subia, estava emperrada. Fiz mais força e meus braços escorregaram, cedendo o cotovelo sobre o vidro, trincando-o. “DROGA!” – berrei – Mas eu não queria me estressar naquele momento. A dor de cabeça já bastava. Acendi o cigarro e fumei-o sem a janela.


Eu escrevia para o caderno de política, e tinha de encher as linhas de linguiça explicando de que forma a Rússia atacou os Estados Unidos – com as bombas hora! Mas esse era o jogo, eles adoravam os pormenores. O telefone tocou:


– Alô?

– Bom dia senhor, gostaria de conhecer nossos serviços de telefo...


– Vá te foder! – bradei, o interrompendo e desligando o telefone.


Minha barba estava por fazer, eu gostava dela daquele jeito. Fui à cozinha buscar o que beber, tinha álcool ou álcool, optei pelo álcool – eu estava sem fome. Talvez eu fosse alcoólatra, mas não importava, eu pensava melhor bêbado, e aquilo me sustentava, saciando meu vicio e garantindo minha sobrevivência. Isso tornava a bebida minha benção e minha maldição.