Meu nome é Chico Arruda
Mendes, ou só Chico – espero que seja esse mesmo. Já me chamaram de Zé, José,
Carlos, José Carlos, Bahia, Paraíba, Ceará, Piaui... Mas raramente de Chico, engraçado
me chamarem assim, sou do sul.
Nasci numa família de
classe alta. Pai militar, com um cargo de poder na ditadura, e mãe professora
de universidade. Tive tudo do bom e melhor. O melhor ensino, as melhores
escolas. Sempre usufrui das vantagens da classe social que eu pertencia. Estudei
economia na Europa, me formei e voltei ao Brasil. Ingressei diretamente num
cargo alto dum grande banco, por indicação de um amigo de meu pai – não me
recordo o nome do banco, nem do tal amigo, a memória ruim deve ser por conta da
minha loucura. As coisas eram tão fáceis naquele tempo, tão vis. E eu... Eu era
desprezível... Meu pai morreu, e mamãe também.
Um rapaz me gritou do
balcão, interrompendo-me:
–
Vai
bebe fí?
Balancei a cabeça
negativamente. Olhei o relógio na parede, o ponteiro grande estava quase no
seis, e o pequeno quase na metade do três... Três e vinte oito. Chovia.
Eu não tinha um puto no
bolso, mas não queria comer. Havia conseguido sete paus dançando – pois é,
dançando – no farol e pedindo esmola, me alimentei como deu.
Voltei a mim:
O começo desta nova
vida foi complicado, eu era muito arrogante, exigia que os outros mendigos não
se aproximassem de mim, como se eu fosse superior a eles, mas depois de um
tempo percebi que estava na mesma privada, lutando para não afundar mais ainda
em meio a tanta merda. Tinha vergonha de pedir esmola, tinha nojo da minha
aparência e repugnava meu cheiro... Mas esse processo foi bom. Bom para eu
pensar, refletir, aceitar e talvez melhorar, e hoje... Hoje, cá estou, cheirando
o mijo e a cerveja, e cheirando a mijo e cerveja.
Hm... Sempre achei
engraçado pedir esmola. É trabalhoso retirar algo de alguém através da caridade,
o ser humano é muito egoísta, não mexe um músculo para ajudar alguém... Se bem
que não posso culpá-los ou criticá-los, pois eu era assim também. Estão sempre
com pressa, ou sem grana, ou “sem grana”... Já cheguei a ser atropelado por
teimosia... Mas o barato da coisa é como dão a contribuição. Fazem uma faceta
cínica, misturando incrivelmente o mau humor à felicidade, e no fundo,
sentem-se como se fossem obrigados a realizar uma boa ação para “saciarem-se
espiritualmente”... Como se dar cinquenta centavos fosse a sua missão de paz. Mas
de qualquer forma, eu sempre retribuía saudando-os. Sou um mendigo de modos,
talvez até excêntrico. Eu saudava-os tirando meu chapéu e fazendo uma cordial reverencia,
geralmente isso fazia-os rir. Eu não gostava daquela coisa mecanizada de dizer:
“Deus te abençoe”... Se fosse para agradecer, deveria ser espontâneo,
altruístico.
Nunca me envolvi com
nenhum tipo de droga, e mesmo sendo fácil consegui-la no submundo que vivo, e um
naco da minha humilde casta usarem-nas, eu nunca me envolvi. Eu bebia, mas não
considerava o álcool uma droga, mas sim um refúgio, um esconderijo frio e quente,
claro e escuro, bonito e feio; confuso, mas escondia-me da realidade. Havia
vezes em que eu passava o dia inteiro bebendo e dormindo. Bebia e dormia nos
dias difíceis, nos dias chuvosos, nos dias tediosos, nos dias de fome, nos dias
comemorativos, nos dias normais, de dia, de tarde, de noite. Pelo menos uma
dose diária sempre percorria meu sangue. Parece que a única coisa que nunca
faltaria a um mendigo até o fim dos tempos seria a bebida. Ela fazia parte do
meu ser, mas eu quase nunca deixava de trabalhar, estando sóbrio ou mamado...
Eu sempre queria beber mais, e eventualmente, comer.


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