quarta-feira, 30 de julho de 2014

2027 (Parte 3)

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O cigarro acabou, mas eu ainda possuía dois maços dele, isso me alegrava em meio a tanta monotonia. Lembrei-me do vinho, o bebi sedento. Tornei a gravar:

“Pós a guerra, não havia mais governo. A sociedade que sobrou se organizou como deu. Remanescentes criaram pequenas colônias – faço parte duma. Nos alimentamos de alguns animais urbanos, e principalmente de alimentos ainda consumíveis encontrados em locais abandonados – orgulho-me do meu vinho. Tudo isso é limitado, mas ninguém importa-se, vivemos um dia de cada vez, e quando tivermos de morrer, morreremos. Não há mais diferença de morrer hoje ou daqui há anos...”

Pausei novamente, o sol estava se pondo, e contemplando aquele espetáculo, me dei conta do tempo que havia passado, eu não sabia ao certo que horas eram, mas devia ser entre cinco e meia e cinco e quarenta. Mas isso não tinha mais importância.
Escureceu. Levantei-me custosamente para pegar uma vela que estava em cima da geladeira, esgueirando-me para não esbarrar nos caixotes. Acendi-a com o resto de isqueiro que eu ainda tinha. Sentei de volta na poltrona, e senti o cansaço pesando em meu corpo. Bebi mais um gole do vinho que repousava em cima da escrivaninha há umas horas e adormeci.
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quinta-feira, 24 de julho de 2014

2027 (Parte 2)

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“Não existe mais direito, não existe pudor, não existe sociedade, não existem mais governantes, não existe economia. Nada. Apenas o caos, a desordem, o anarquismo descontrolado e a própria subsistência. A humanidade está perto de sumir.”

“Bem, tudo teve início naquele mês de agosto ou setembro – não me recordo – de 2015, a tensão entre Rússia e Estados Unidos chegou ao limite, a Coréia do Norte invadiu a Coréia do Sul, e então veio a guerra – Sim, a Terceira Guerra Mundial –, os Estados Unidos foi o primeiro atingido pela bomba lançada pelos Russos, a explosão destruiu um terço do norte do continente Americano, o Canadá sumiu. O revide iniciou com as tropas americanas invadindo a Rússia. A União Europeia declarou-se aliada a terra do Tio Sam. Os chineses e os norte-coreanos aliaram-se aos Russos. Israelitas tomaram Gaza. O Brasil abriu suas portas para a chegada de estrangeiros ligados às forças do Estados Unidos e de seus aliados. A guerra durou nove anos, e nesse meio tempo houve guerras civis no Brasil. O hospitaleiro povo brasileiro rebelou-se contra as medidas de cortes e gastos do governo, e contra a superlotação do país, que atingira a marca de mais de meio bilhão de habitantes. A natureza também rebelou-se, o oceano subiu, ilhas e países baixos sumiram. Terremotos separaram partes de terras de alguns continentes, e também dizimaram alguns países. A fome chegou, bilhões e bilhões morreram. A guerra terminou, não houve vencedor, todos perderam...”

Pausei a gravação, resolvi parar um pouco, pois estava cansado, o calor era quase sempre insuportável. O clima mudou muito durante e após a guerra, provavelmente devido aos danos das bombas e aos danos causados pelo homem. As estações do ano eram obsoletas. Raramente chovia e quase sempre o sol reinava durantes os dias. As noites eram muito frias, e a água escassa. Excepcionalmente, um clima desértico.
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terça-feira, 22 de julho de 2014

2027 (Parte 1)

Voltei ao meu apartamento. Fui à cozinha buscar minha última garrafa de vinho que eu conservava para momentos derradeiros – como este. Peguei um copo. Não havia nada demais naquela cozinha, apenas uma pequena geladeira – abastecida por uma bateria de carro perto de morrer –, alguns caixotes e o cheiro de mofo e umidade que exalava das paredes sutilmente rachadas. Sentei na poltrona de coro surrado e aconchegante que ficava ao lado da janela com os vidros trincados. Abasteci meu copo, desenterrei o gravador antigo que eu usava como registro das minhas entrevistas, ele estava entre uns papéis e correspondências inúteis na escrivaninha à minha direita. Acendi um cigarro velho, traguei-o, e comecei:

“12 de setembro de 2027, um sol de latejar as têmporas, jaz no nu céu enquanto seus raios vestem a paisagem seca e abandonada de São Paulo. Gravo essa mensagem de maneira impaciente e esperançosa, como registo para futuras gerações, mas talvez não exista mais futuro”. Bebi com gosto aquele primeiro gole de vinho.

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