(...)
O cigarro acabou, mas eu
ainda possuía dois maços dele, isso me alegrava em meio a tanta monotonia. Lembrei-me
do vinho, o bebi sedento. Tornei a gravar:
“Pós a guerra, não
havia mais governo. A sociedade que sobrou se organizou como deu. Remanescentes
criaram pequenas colônias – faço parte duma. Nos alimentamos de alguns animais
urbanos, e principalmente de alimentos ainda consumíveis encontrados em locais
abandonados – orgulho-me do meu vinho. Tudo isso é limitado, mas ninguém
importa-se, vivemos um dia de cada vez, e quando tivermos de morrer,
morreremos. Não há mais diferença de morrer hoje ou daqui há anos...”
Pausei novamente, o sol
estava se pondo, e contemplando aquele espetáculo, me dei conta do tempo que
havia passado, eu não sabia ao certo que horas eram, mas devia ser entre cinco
e meia e cinco e quarenta. Mas isso não tinha mais importância.
Escureceu. Levantei-me custosamente
para pegar uma vela que estava em cima da geladeira, esgueirando-me para não
esbarrar nos caixotes. Acendi-a com o resto de isqueiro que eu ainda tinha.
Sentei de volta na poltrona, e senti o cansaço pesando em meu corpo. Bebi mais um
gole do vinho que repousava em cima da escrivaninha há umas horas e adormeci.
(...)

