sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Por que?

A barba e os cabelos crescem; dia vai e dia vem... mas ainda não encontrei um pingo de lógica para essa coisa toda que é viver. Sinto um vazio que preenche, mas não um sentido que transcenda os limites da alma. Talvez esse sentido esteja no amor, mas que tipo de amor? O amor egoísta de achar-se dono de um e este achar-se dono de ti? Não, esse amor é ilusório e passageiro, é uma droga, uma droga como o crack que só satisfaz momentaneamente fazendo-nos querer mais e mais, levando-nos ao sofrimento... e esse “mais e mais” é impossível – ou não – de se ter. O único amor que proporciona algo válido para a existência talvez seja é o amor puro e altruístico, o “amar sem ver quem ou à quem”. É o amor que cantou John Lennon e Renato Russo, é o amor que Jesus proclamava com tanta fé ao mundo... é um amor quase inalcançável para a maioria de nós: reles seres humanos amarrados às limitações das emoções baixas e vis.

Vivemos a satisfazer desejos da carne, mas por quê? E depois da carne... após a morte... o que há de vir? O que será essa carne, que tanto presamos, após a morte? O que essa carne é se não uma massa que se decomporá em companhia aos vermes de baixo da terra? O que somos além de poeira nessa vastidão negra e maravilhosa que é o universo? Já que basicamente não somos nada, por que estamos aqui? E por que temos essa capacidade toda de questionar nossa existência? E o que de útil isto é, ou será, já que não somos nada? NÃO SEI. Isso deveria intrigar a todos... mas como não temos tempo – ou vontade – de fazê-lo, ficamos com o mais fácil: Deus criou tudo com uma varinha de condão, e se formos bonzinhos e não questionarmo-lo  iremos para o céu cavalgar com unicórnios sobre o arco-íris.... mas se você blasfemar irá queimar pela eternidade entediante no fogo do inferno... Então quer dizer que Deus nos criou para servimos de experiência ou de um brinquedo para testar nossa bondade? Mas se Deus sabe de tudo, e sabe quem vai ser bom ou ruim, por que ele perde tempo com essa brincadeira? Será que ele é um tipo estranho de maníaco?  Mas por que desse jeito? Por que existem seres materialmente pobres e seres materialmente ricos? Por que toda essa desigualdade perante aos seus olhos misericordiosos de Grande Irmão que tudo vê? Por que há quem nasça com a vida feita e há quem nasça no lodo da espécie humana? Que porra de Deus justo é esse? Porém, tudo isso pode ser verdade e eu talvez esteja louco. Deus realmente criou tudo e a todos; Deus realmente realiza nossos desejos quando merecemos... mas já que é assim, somos interesseiros, pois fazemos o “bem” por obrigação à espera de um milagre por nossa bondade praticada, e não pela felicidade de ver uma pessoa bem... Meritocracia mesquinha, essa... E se tudo der errado, se coisas ruins acontecerem com você, à nós: “É obra do capeta”, “É o demônio”... Agarramo-nos a coisas talvez inexistentes quando a vida aperta...
Somos pobres, fracos, frágeis, medrosos e vulneráveis... escondidos atrás da cortina de aparências, de status... escondidos atrás de uma fé... escondido atrás de carnes e ossos... escondidos atrás de ignorância. No fundo, bem no fundo, não somos nada.

sábado, 8 de novembro de 2014

Memórias de Um Trago

O telefone tocou e eu ainda estava deitado. Não quis atender. Acender um cigarro na minha cama era prazeroso demasiado para me conter em falar com alguém. Não me importava, embora pudesse ser o cara do aluguel me cobrando. Quatro meses de atraso não é atraso. Atraso é esperar meses por uma consulta derradeira, tipo nesses hospitais públicos, afinal é uma vida que está em jogo, e neste caso o cara só vai embolsar uma grana minha que na realidade não existe nessa realidade... Hm... estou apreciando a um concerto: o tique-taque do relógio, a goteira, meu arfar, os vizinhos trepando e a fumaça do meu tragar fazendo a mágica dum gelo seco... até que dá uma música legal, como esses rocks psicodélicos com os caras fumando mil e uma drogas pra morrerem engasgados com a própria overdose e tudo mais... Aquela menina do café da esquina até que era bonitinha. Aposto que o batom escarlate manchou a xícara. Ela bebia aquilo com uma serenidade impar, era quase poético vê-la desfrutando daquele negro quente. Pensando bem, ela era bem bonita... grandes olhos mel, pele alva, cabelo liso castanho, nariz fino, lábios finos, face corada, as unhas bem pintadas – era roxo... eu a desejava desde seu all-star branco até seu sorrir nunca visto por mim, mas acho que o café negro quente era mais importante que meus olhos... eu talvez não fosse para aqueles belos bicos que se deliciavam com a xícara e com o café da xícara. Uma pena, o all-star dela até que combinava com o meu... e ainda, do que apenas olha-la adianta senão embriagar  meu encantamento?... eu gostaria de ser aquela xícara que tocava os lábios a mim não pertencente.
Chuva – de novo... Agora as moscas se acumulam na visão que tenho do teto rachado. O deleite que o fumo me traz num clima desses, é surreal. E mais surreal ainda é acreditar que esse tabaquinho realmente mate... talvez as coisas boas matem-nos e Deus queira que sejamos caretas, o céu seja uma reunião de vegetarianos e veganos discutindo como os agrotóxicos interferem na pureza do vegetal – ARGH. Os doidos, os picaretas, os caras-de-pau são quem mandam no mundo... os pauleiras... os serenos...  as “metamorfoses ambulantes” são quem vivem a vida de verdade... pra que regras? E o que elas são? Ninguém o sabe... se Deus fosse bom, como dizem, seriamos imortais e viveríamos deitado enquanto fumamos um cigarro infinito num dia cinza de chuva na cidade preto e branco. Deus talvez queira nos dividir com o Diabo como divide-se e troca-se figurinhas...  e já que as coisas como: fumar, desejar uma mulher, brincar com nosso sexo, beber e  comer muito são ruins e a que ruindade é o caminho do inferno, o inferno e o Diabo devem ser do caralho – I'm on the highway to hell. E os que para o céu forem, ficarão a discutir sobre a mancha da camisa, o chá muito açucarado... farão das frescurices de uma moça a arte dum Louvre... mas penso: e os pobres esmagados pelo mundo? Irão pra onde? Bem... quem sabe, talvez, para um universo-alternativo-utópico-paralelo onde nunca faz calor demais nem frio demais. Onde há uma casinha bem regrada para todos. Onde das árvores brotem todos os tipos de alimentos e onde a doença seja apenas mais uma lenda de horror... onde todos sorriem. Onde não haja religiões pra amarrar ou trabalho para escravizar... apenas o bom amor recíproco e a alegria tatuada em cada alma que um dia sofreu.
Que sono! Sono que cai em mim como a chuva cai no asfalto – lá fora. Tem alguém na porta. Deixe-o, talvez ele ache que eu tenha morrido; e, assim, para o inferno onde tudo é do caralho, eu parta.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

La Preguice

Tanta coisa na cabeça, mas a ideia não sai. Talvez seja preguiça, talvez seja o tal do bloqueio.
As ideias engasgam na caneta, nas teclas... a preguiça me abraça e o bloqueio me beija, abusam de mim e me impedem de por uma palavra sequer neste espaço em branco... vazio e solitário.
Careço da escrita, como um drogado carece a droga, como um amante carece o reles beijo, como um apaixonado... como um apaixonado carece os braços ternos de seu amor.
As minhas ideias carecem da não preguiça, mas há horas que as engrenagens não rodam. Mil ideias explodem, mas o escrever afunda-se no oceano iludido da preguiça de cada dia que, sem pudores, abusa de mim.
De qualquer forma, a não ideia é uma ideia. Ela dá frutos, como isto que, sem rumo, escrevo... talvez não seja nada maduro, todavia são espaços preenchidos... um começo. O princípio de algo. O princípio do princípio.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Pai, afasta de mim esse ódio

Tão fácil é cuspir o ódio... fácil é cuspir o ódio, e cuspi-lo são.  Cuspir esse ódio surdo, esse ódio vil armazenado em cada letra cuspida por seu ódio. Ofensas sem sentido... por que? As eleições acabaram. Dilma venceu... mas, e teu ódio? Teu ódio venceu o teu amor? Venceu teu amor nas eleições? Nas eleições da tua alma?
A razão é tua, toda tua, tu está corretíssimo. Mas talvez teu candidato não seja o deste cara, ou daquele... talvez seu candidato não esteja certo, ou esteja, mas talvez o candidato daquele outro esteja também, ou não... quem sabe?
“Nordestino ignorante”, “Povo burro”, “Nordeste nunca vai dar orgulho pro Brasil”... mas não são as várias escolhas, várias opiniões que regem o amago duma democracia? Ódio, incompreensível ódio, embora não vivamos num país justo de governantes transparentes, nada justifica o bombardeio de ofensas à uma região tão bela. Uma região de maravilhosas maravilhas naturais, uma região que nos deu tão lindos artistas – José de Alencar, Aluízio Azevedo, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Zé Ramalho... e um vasto valor cultural. Votemos no amor.
Viva a democracia, viva o respeito – boa sorte, Brasil –, viva o amor. O amor que nos faltou...

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Porra, São Pedro...

Sei lá... Sei lá... Sei lá... esse calor que fode alma adentro me faz pensar apenas nesse calor que fode alma adentro. O corpo sua, a mão seca que seca a testa molhada feito para-brisa, a sede queima, a água desce seca, seca e rasga. E a chuva nunca vem. São Paulo, a terra da garoa... garoa de sol, garoa de luz cortante...
Saudades da chuva; aquela chuva que refrescava e acalmava tudo após a tempestade de calor que hoje castiga veementemente as más bocas; más bocas que antes tanto zombava do nordeste e sua sequidão, mas que agora sofrem com o que antes era-se apenas alheio aos zombadores das más bocas... até parece um castigo de São Pedro.
O ventilador sopra quente. As paredes são uma fornalha. As moscas me atacam obscenamente, brincando de pousar sem escrúpulos e tapeando minha mão que as persegue inutilmente...
Saudades de quando a água executava a sede brutalmente... agora apenas dá a ela uns tapas camaradas...  
Esse mormaço abafado parece uma prisão sufocante... TUDO É QUENTE... sei lá... só espero que São Pedro pare de putaria e volte com a normalidade que reinava... cansei de experimentar o sabor do inferno.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

The Tédio

Tédio. O pé que dorme; os olhos que fitam, e a luz que, no piso gelado, pousa. A cama quente, o frio que esquenta, e a música que sorri aos ouvidos. Os olhos que se fecham, a moça que fala, o Téo que late. A música que se vai, a mente que escreve. A música que volta para fazer meus ouvidos felizes, os pés que gelam, e as meias que chegam. A caneta lenta que beija o papel, o azul que marca, e a mente que se distrai. A música que se vai, os olhos que piscam, o corpo que respira, a mosca que canta, e a música que torna, vêm...
A preguiça desembarca. A mãe que grita e a louça que não se lava, só. A lição que não se faz, só. A roupa que não se estende, só... E essa chatice amável do dia-a-dia que não me deixa, só.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Amor'lheio

O amor é uma bela coisa. Essa coisa do amor está em tudo. Está na manhã cinza, está no banho tomado, na roupa passada, no cabelo molhado, no café esquentado, nos dentes escovados, no nariz soado, na barba não feita, no espelho encarado, nos passos apressados, no abraço da moça, e em teus beijos molhados.
Um olhar à aula na sala, e lá o amor endiabrado. Nos risos sonhados, nos gritos inchados, nas cadeiras rachadas, nas mesas riscadas, no chão turvado – de tão pouco lavado. Nas folhas vazias, tão brancas de nada. O amor na matemática esculachada, nas aulas perdidas jogadas ao lixo, e nos alunos falantes desinteressados a piorar. O amor, no português Carrasco, e este apaixonado com sua quarta a cultivar. A quarta da testa alva pelada e o outro do topete chapado que de tão belo ao seu lado, sorri alegrado com a quarta a conquistar.
De fato o amor é gozado, em tudo ele vive – seja preso, seja livre – nos mais simples fatos do cotidiano corriqueiro – jogado –, vivido e passado. Amor no passo arrastado da preguiça apressada, do abrir o negro portão, e ao sentar no colchão o lápis se põem a isso talhar. E com a mente a bicas no colo da não razão, o vão se esvai, e tudo que não rima, cai.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Doido Chico (Final)

Vai beber ? – perguntou-me novamente o cara do balcão.

– Não, obrigado monsieur – respondi-o educadamente.

– Mais meu nome é Carlos, rapaz – disse com ar de confusão.

Certo... Não beberei, Carlos – tornei sorrindo.

Enfim não havia sido tão ruim... A sarjeta... Esmolas... E em tantos anos nas ruas eu havia aprendido a ser gente, aprendi a ver o mundo real, aprendi a passar dificuldades, aprendi a sentir fome, frio, medo...  Uma bela bordoada que a vida me deu.
Agora eu via as pessoas como elas de fato são: seres de certezas incertas, fortes fragilidades, perfeitas imperfeições... Não importa quem seja, ou qual classe pertença, cor, ou o que faz. São todas assim.
Bem, eu tinha meu violão de volta, eu o recuperei há um tempo...

Eu estava passando por uma avenida perto daqui – o boteco era como meu astro rei... Eu girava em torno dele, e por mais que eu tentasse me afastar, a gravidade do malte me puxava novamente –, na ocasião eu fedia mais que o normal, pois o sol que castigava aos céus era escaldante, e seu fulgor fazia-me suar... Sempre quis saber donde saia tanta água. Na ocasião, eu voltava com algumas moedas no bolso da velha calça após mendigar ali perto, eu seguia em direção à praça para descansar um pouco, e quando lá cheguei, eu ri. Mirei um caboclo, velho, aparentemente um pouco mais novo que eu – uns cinquenta... Cinquenta e um... –, tocando violão sentado num banco, um maldito violão idêntico ao meu: as quatro cordas, os trastes gastos, o braço levemente curvado... Ponderei... E sim... Era o meu violão!
Fui de encontro ao querido maldito, seus olhos eram negros e esbugalhados, seus era lábios finos, seu cabelo era crespo e grisalho, e sua face maltratada pelo tempo carregava rugas exacerbadas. Abordei-o inocentemente:

– Ei amigo, belo violão, hein chapa! – disse com tom irônico camarada.

– Tu achas? – respondeu-me revelando, pela fineza de sua fala, que talvez fosse um rapaz que um dia foi abastado, como eu.

– Claro, tua estética rustica és poética... – eu não poderia enrolar... – Olha...

– Certo. Certo... Deixe de tolices. O quer de volta? – disse me cortando.

– Sem dúvida, mas como? Espere... – bufei confuso e pensativo.

– Eu dei-lhe a pancada – disse estampando uma faceta com um sorriso de malicia.

– Mas...?! Por que isso?

– Eu passava por aqui quando o vi cantando aquelas coisas; gostei do violão, e decidi roubar-lhe, simples.

– Sem pudores? Desavergonhadamente? – repliquei.

– Claro, amigo, olhe meu estado. Olhe vosso estado! O que há de pudor? Com o que preocupar-se? Eu tive apenas o esforço de dar- lhe o golpe... Ninguém se importa.

Pensei um momento... Ele tinha razão.

– Realmente... Tu és um gênio, admiro sua lógica.

– Obrigado, mas não sou nada. Pegue-o de volta, não me serve mais – disse levantando-se do banco e dando-me o violão, que se encontrava da mesma maneira que antes estava.

Eu de certo modo, deslumbrado pelo pensamento do meu novo “amigo”; sentia-me confuso, não sabendo se o cumprimentava ou o esbofeteava.

– Qual teu nome?

– Zé.

– Zé?

– Não, Antônio.

– Ah, imaginei. O meu é Chico... Exatamente, Chico.

– Prazer em conhecer-lhe, Chico... Vou indo, quem sabe nos encontramos nos becos escuros que a vida reserva para nós, mendigos senhores das ruas... – disse sorrindo, mostrando seus dentes amarelados.

– Até... E... Obrigado pelo violão... – Eu acho...

Acenou-me uma última vez e se foi... Eu ri.

Voltei à realidade, estava outra vez no boteco. Olhei para o relógio, eram quatro e vinte e sete. Levantei e fui até o balcão, chamei Carlos e disse:

– Vou beber .

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Doido Chico (Parte IV)


A chuva parou e de acordo com o relógio do boteco, era quatro e treze. Bem... A história da minha vida antes de parar na sarjeta...
Eu tinha acabado de me formar em economia e estava retornando ao Brasil com grandes expectativas, grandes sonhos e com um sentimento sublime de superioridade, esperando que tudo desse certo quando eu pisasse em solo brasileiro... Essas baboseiras da mocidade, ou da minha mocidade.  Mas mesmo sendo baboseiras, de fato tudo deu certo, uma semana após voltar para casa dos meus pais, tive uma breve conversa com meu pai, e ele me disse:

Ei moleque, tu há de trabalhar.

Onde?

– Banco.     
                                         
Quando?

Em breve.

Ótimo.

Mais uma conquista de maneira simples e vil como costumeiramente sempre foi – eu adorava isso, infelizmente adorava...

Esse era o tipo de conversa que eu tinha com meu pai: seca e breve. Sua rudez fazia parte da mascara de militar, pois eu quando criança o via sorrindo e trocando gracejos com mamãe. Mas com o tempo, de alguma forma essa máscara cravou-lhe na alma, e ele tornou-se realmente rude e frio.
No fim da minha adolescência, pouco antes de partir à Europa, mamãe brigava constantemente com ele, eram brigas feias. Mamãe não concordava com as coisas que ele fazia e nem com o curso que país seguia. As discussões duravam de minutos e às vezes horas, e eu tinha de ouvir tudo indiferentemente calado.
Quando voltei, a ditadura estava sob pressão. Crise no país, as diretas, o clamor pela democracia... E meu pai, também pressionado, parecia descontar seu descontentamento em mamãe, que igualmente revidava dizendo-o que ele estava errado em continuar fazendo ‘aquilo’ e que era insustentável, então ele replicava bradando a todo pulmão que ‘aquilo’ havia sustentado a família e principalmente ela. Eu sabia o que meu pai fazia, mas por que eu o contestaria estando confortavelmente bem de vida? Por que poria tudo a perder por outras pessoas?... Eu realmente fui um filho da puta.
Com o fim da ditadura e o reestabelecimento da democracia, mamãe divorciou-se de meu pai. Ingressei como bancário de acordo com o combinado, e então deu-se inicio a minha feliz decadência. No começo tudo eram flores, eu recebia, não fazia muita coisa, fodia os pobres – como já pensado – e ia para esbornia. Mulheres, bebidas, sexo... Foram momentos prazerosos; prazerosamente ilusórios. E num piscar de olhos vi que estava me afundando, endividando, devendo... E meu salário não era suficiente para manter o que eu fazia.
Após o divórcio e a perda do cargo, meu pai isolou-se dentro duma solidão profunda. O abatimento ao ver sua posição ruir diante de seus olhos, o desgosto pela esposa o ter abandonado, e tudo o que ele havia conquistado afundar totalmente, foram pancadas muito fortes que o atirou na solidão. Eu visitei-o algumas vezes antes de morrer, e em todas as minhas visitas eu via o vazio em seus olhos, o vazio nos seus jeitos, o vazio na sua fala... Como se sua alma tivesse partido há tempos... Era triste vê-lo assim, mas eu era indiferente... Eu nunca fui muito próximo dele e, portanto era uma tristeza hipócrita, uma espécie de obrigação de sentir-se triste por se tratar de um familiar... Por ser meu pai. Quando morreu, segui as tradições, e o que nunca existiu em mim, foi enterrado. Minha vida prosseguiu...
Com mamãe foi totalmente diferente... Mamãe era uma moça amorosa, inteligentíssima e bela. Seus fortes olhos azuis se destacavam na singela face pálida. Seu dom em transmitir conhecimento era ímpar, ela me ensinou a ler e a escrever... Deu-me amor, refúgio e segurança, foi uma mãe completa... Perfeita.
Para ela o divorcio foi mais fácil, muito mais fácil, a separação representou sua liberdade que havia chegado ao fim no inicio da rudeza de meu pai. Eu a visitava, assim como fazia com meu pai, porém com maior frequência... A presença de mamãe para mim era agradável e essencial. Os traços da velhice começavam a surgir nela, mas sua agudeza vigorosa no espírito continuava a mesma. Conversávamos por horas, sempre rindo, sempre felizes.
Com o passar do tempo, mamãe adoeceu, e eu não tinha mais tempo para vê-la, as besteiras que eu fazia engoliam-me. Quando finalmente mamãe veio a falecer, senti a maior dor de todas, senti a verdadeira tristeza, a verdadeira amargura... Perdi os sentidos, perdi minha direção, não havia mais “papai” para me sustentar, nem mamãe para me afagar... Perdi-me... Afundei-me profundamente na bebida, perdi o emprego, e enfim, a sarjeta me encontrou.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Doido Chico (Parte III)

Eu sabia tocar violão, e rasgava um som no saxofone. Adquiri essas habilidades com um cara legal em Londres, durante minha passagem de estudo a Europa. Ele se chamava Johann e dizia-me: “This finger here, and this finger here ... Come with me ...” Eu o seguia e fui pegando jeito da coisa, não foi difícil. Eu também gostava de cantar, e embora minha voz carregasse uma rouquidão que me puxava este talento, eu simplesmente cantava. Essas habilidades me ajudaram algumas vezes a ganhar uns trocados e era a maneira mais engraçada de pedir esmola. Eu tinha de criar versinhos bobos na hora para chamar atenção dos que passavam por mim fingindo não me ver. Dedilhava o violão e cantava coisas como:

Ei,
Olhe pra mim amigo,
Estou em perigo, com fome e fodido,
Não me faça teu inimigo...

Ou:

Olá linda moça,
Moça da roupa vistosa,
Estou cansado,
Mas hei de comer – um dia,
Arrume-me uns trocados,
Agilize minha reles alegria...

Eram verdadeiras merdas de arte, mas eu tinha fome e precisava batalhar meus trocados. Infelizmente – ou felizmente –, tive de parar com os solfejos improvisados, pois roubaram-me o violão... Não era bem um violão, ele possuía apenas quatro cordas, mas ainda assim era-me de grande utilidade e fazia um som legal, além do valor sentimental que eu havia depositado nele.
O episódio do roubo foi engraçado... Eram quatro horas da tarde, eu não tinha relógio, mas o carro do churros estava passando, e ele passava sempre no mesmo horário, às quatro. O mês era maio, e como de costume, eu estava numa praça – bem perto do boteco que estou agora – cantarolando para os que passavam. A maioria voltava do trabalho, uns com o semblante abatido pelo cansaço, uns de cara fechada, outros com um leve suor correndo pelas têmporas, e alguns com tudo isso junto. A maioria deles não me dava bola, e raros me ajudavam com moedinhas... Eu os entendia, entendia os motivos de viveram daquele modo, entendia o porquê de não estarem minimamente felizes, e de não ligarem para minha presença. São como zumbis, robôs, todos programados e pensando: família, contas, casa, comer, trabalho, dinheiro, filho... Esses devaneios talvez os aturdissem...
Mas enfim, eu colocava uma espécie de pote alumínio a minha frente para receber uns trocados, e tocava o que eu sabia, tentando sempre ser – ou parecer – agradável. Umas moedas aqui, outras ali, algumas acolá... Quando caia a tarde e o sol começava a pôr-se – umas cinco e quarenta – eu me levantei recolhendo o apanhado do bendito dinheiro conseguido, o movimento na praça era semelhante ao das quatro.
Seguindo em direção ao boteco para gastar uns trocados em bebida, sinto uma pancada de súbito na altura da nuca e desmaio... Antes de perder totalmente a consciência ainda ouço uns gritos, e uns suspiros de espanto.
Não sei quanto tempo mais tarde, acordei confuso, amuado, tonto, com fome e cansado. E entre umas piscadelas e um bocejo, comecei a sentir falta de algo... O violão... PUTA MERDA! O VIOLÃO! Que diabo de pessoa rouba um diabo de violão velho de quatro cordas?! E detalhe: eu permanecia com o dinheiro.
Totalmente sem rumo e indignado, tento relembrar o fato e logo percebo que estava basicamente no mesmo local onde eu devo ter desabado... Refletindo momentaneamente, vejo mais uma vez quão grande é o descaso de ser para ser, pois não tiveram o mínimo de interesse em me chutar para um canto, deixaram-me estirado no meio do caminho, e com certeza prosseguiam passando por cima de mim – devia ser uma cena engraçada... Entretanto, como de costume, já estava acostumado com as lisonjeiras.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Doido Chico (Parte II)

Meu nome é Chico Arruda Mendes, ou só Chico – espero que seja esse mesmo. Já me chamaram de Zé, José, Carlos, José Carlos, Bahia, Paraíba, Ceará, Piaui... Mas raramente de Chico, engraçado me chamarem assim, sou do sul.
Nasci numa família de classe alta. Pai militar, com um cargo de poder na ditadura, e mãe professora de universidade. Tive tudo do bom e melhor. O melhor ensino, as melhores escolas. Sempre usufrui das vantagens da classe social que eu pertencia. Estudei economia na Europa, me formei e voltei ao Brasil. Ingressei diretamente num cargo alto dum grande banco, por indicação de um amigo de meu pai – não me recordo o nome do banco, nem do tal amigo, a memória ruim deve ser por conta da minha loucura. As coisas eram tão fáceis naquele tempo, tão vis. E eu... Eu era desprezível... Meu pai morreu, e mamãe também.

Um rapaz me gritou do balcão, interrompendo-me:

Vai bebe ?

Balancei a cabeça negativamente. Olhei o relógio na parede, o ponteiro grande estava quase no seis, e o pequeno quase na metade do três... Três e vinte oito. Chovia.
Eu não tinha um puto no bolso, mas não queria comer. Havia conseguido sete paus dançando – pois é, dançando – no farol e pedindo esmola, me alimentei como deu.

Voltei a mim:

O começo desta nova vida foi complicado, eu era muito arrogante, exigia que os outros mendigos não se aproximassem de mim, como se eu fosse superior a eles, mas depois de um tempo percebi que estava na mesma privada, lutando para não afundar mais ainda em meio a tanta merda. Tinha vergonha de pedir esmola, tinha nojo da minha aparência e repugnava meu cheiro... Mas esse processo foi bom. Bom para eu pensar, refletir, aceitar e talvez melhorar, e hoje... Hoje, cá estou, cheirando o mijo e a cerveja, e cheirando a mijo e cerveja.
Hm... Sempre achei engraçado pedir esmola. É trabalhoso retirar algo de alguém através da caridade, o ser humano é muito egoísta, não mexe um músculo para ajudar alguém... Se bem que não posso culpá-los ou criticá-los, pois eu era assim também. Estão sempre com pressa, ou sem grana, ou “sem grana”... Já cheguei a ser atropelado por teimosia... Mas o barato da coisa é como dão a contribuição. Fazem uma faceta cínica, misturando incrivelmente o mau humor à felicidade, e no fundo, sentem-se como se fossem obrigados a realizar uma boa ação para “saciarem-se espiritualmente”... Como se dar cinquenta centavos fosse a sua missão de paz. Mas de qualquer forma, eu sempre retribuía saudando-os. Sou um mendigo de modos, talvez até excêntrico. Eu saudava-os tirando meu chapéu e fazendo uma cordial reverencia, geralmente isso fazia-os rir. Eu não gostava daquela coisa mecanizada de dizer: “Deus te abençoe”... Se fosse para agradecer, deveria ser espontâneo, altruístico.
Nunca me envolvi com nenhum tipo de droga, e mesmo sendo fácil consegui-la no submundo que vivo, e um naco da minha humilde casta usarem-nas, eu nunca me envolvi. Eu bebia, mas não considerava o álcool uma droga, mas sim um refúgio, um esconderijo frio e quente, claro e escuro, bonito e feio; confuso, mas escondia-me da realidade. Havia vezes em que eu passava o dia inteiro bebendo e dormindo. Bebia e dormia nos dias difíceis, nos dias chuvosos, nos dias tediosos, nos dias de fome, nos dias comemorativos, nos dias normais, de dia, de tarde, de noite. Pelo menos uma dose diária sempre percorria meu sangue. Parece que a única coisa que nunca faltaria a um mendigo até o fim dos tempos seria a bebida. Ela fazia parte do meu ser, mas eu quase nunca deixava de trabalhar, estando sóbrio ou mamado... Eu sempre queria beber mais, e eventualmente, comer.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Doido Chico (Parte I)


Bem, eu vivia na sarjeta... Espere. “Bem” não é a palavra certa. Talvez “mal”... Hm... Isso... Mal! Mal, eu vivia na sarjeta. Na verdade eu era a sarjeta. Residia nas ruas, sempre vagabundeando a conseguir uns trocados para viver.  Era uma verdadeira merda, mas uma bela aventura. Com o tempo, acabei gostando da coisa, e mesmo se não gostasse, eu não tinha escolha. Eu fui um dia esses senhores que ostentavam seus ternos, sapatos bem lustrados, belos carros e lindas casas, agora, restava-me pouco mais que minha pequena dignidade. Não era muita coisa, talvez minha barba valesse mais que minha dignidade, ou até mesmo meu velho chapéu valesse mais que minha dignidade.
Estou nesse exato momento numa mesa de boteco dentro da minha cabeça ponderando sobre a vida, a minha vida... Gozado, essas porcarias de estabelecimentos sempre cheirarem a urina e cerveja. Acho que eu cheirava àquilo... E os clientes, quando não estão bebendo e tagarelando porcarias, estão mijando, se não estão mijando, estão tagarelando e bebendo porcarias... Mas não importa. Hm... Deixa-me pensar... Faziam – dez... Vinte... Um... Dois... – vinte e cinco anos que eu esteva neste estado. Neste estado de espirito, neste estado de sanidade, de gatunagem, de não ter um teto... Na sarjeta. Eu com certeza havia endoidecido nesse tempo, mas todos endoidecem... E afinal, o que é não ser doido? Um bom cargo? Um carro? Uma casa? Casamento? Filhos? Família? – Argh – Tudo isso me enjoava, deixe para lá.
Ah... Já viajei muito, ainda viajo muito, mas não muito quanto antes. Estou velho, cinquenta e sete ou oito, ou nove anos... Sei lá, mas estou velho. As pernas não são ágeis como antes, minha visão não é certa como antes, meus pulmões não funcionam como antes, nada é como antes. Nunca fumei, sempre bebi. Já fui de tudo e de todos, já fiz tudo. Garçom, dançarino, puto – ainda o sou, mas de outro tipo -, palhaço, vendedor, malabarista, vigarista, flanelinha, músico, engraxate, gari, escravo, homem, mulher e até bancário... Sim, bancário, eu tinha grana, bastante grana. Minha função era foder os pobres e rir com gosto de suas desgraças. Já tive muito, agora, nada.

Foi bom ter endoidecido...

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

2027 (Parte final)

Abri os olhos, a vela estava no seu fim e ainda estava escuro. Eu dormi, e devo ter sonhado com algo, lembro-me apenas de alguns flashes e fios de lembranças... Não devia ser nada de importante. Pensei em prosseguir com a gravação, mas uma ideia que me consumia as entranhas desde o fim da guerra veio à tona. Terminei a gravação, acendi outro cigarro. Levantei-me, deixei a fita em cima da poltrona, abri a janela e sentei nela. Fazia muito frio, olhei para baixo e vi a pura escuridão. Lembranças e recordações ofuscavam aquelas trevas.

Agora percebo o valor dos carros indo e vindo, das tempestades de dezembro, da barulheira infernal que agora traria paz a meu espírito, das pessoas nauseantes que hoje me aliviariam, da atmosfera cinzenta que hoje daria cor à minha enfadonha existência... Nada mais disso havia. Prevaleciam apenas as trevas e o abismo criado por mim.

Agora vejo até onde a ganância, o ódio, a discórdia, a ignorância, a soberba pode nos levar. Chegamos nesse mundo pensando sermos donos de tudo, e que éramos os senhores da Terra. A Terra é a dona da Terra. Nunca compreendi as guerras objetivando a paz, nem a destruição para o progresso. Tudo isso é incoerente, e o fim. é o resultado mais coerente dessa incoerência. Não existe mais Deus, tampouco deuses, não existe fé, nem força. Apenas o saudoso e inevitável fim.

Será que minha vida tinha valido à pena? O que dela havia feito? – Pensei. Moleque tímido aos dez. Aluno dedicado e preguiçoso aos dezesseis. Vagabundo e bêbado aos dezoito. Jornalista, alcóolatra, libertino e fumante aos vinte e três. E agora, o que restou?  O que fui? O que serei? O que há nesse jogo de azar que é a vida? Para que jogá-lo, se o fim é sempre o mesmo para todos? Não sei. Ninguém nunca sabe, ou jamais soube. Céu? Inferno? O nada?

Não havia mais nada a pensar. Não queria pensar em mais nada. Comecei a cantarolar uma letra de música que minha vó cantava para mim quando criança, ‘Hey Jude’, era seu nome. Enquanto rasgava os versos, meu corpo tremia de frio. O cigarro estava na metade, traguei-o.

Eu poderia voltar para dentro, onde era quente – ou pelo menos mais quente que ali –, onde havia meu vinho, a minha poltrona velha e surrada... O meu breve conforto. Ou poderia mergulhar na escuridão; irresistível escuridão. Meu corpo clamava a voltar, minha mente me segurava a ficar.

Estava decidido. Uma última tragada, um último adeus. Meu corpo tremia. ”Tchau” – balbuciei inutilmente com uma lágrima nos olhos. Olhei para baixo, larguei o fumo. Não havia mais sentido viver para viver, e afinal, eu morreria em breve de qualquer maneira. Tudo vacilou, e fui de encontro àquela escuridão fria, crua...

terça-feira, 12 de agosto de 2014

2027 (Parte 5)


Voltei a sentar na poltrona, me pus a pensar, pensar e pensar. Comecei a escrever. Eu tinha o estranho hábito de escrever minhas matérias primeiramente no papel, e depois passá-las ao computador. Gostava de ver meu garrancho, as linhas tortas, os traços estranhos e tatear o lápis. Sentia-me como um artista. Um gole de uísque. Tentei algo:

“Terça-feira, 25 de agosto de 2015...”.

Comecei errado – cacete. Amassei a folha, tentei de novo:

“As forças armadas americanas chegaram à Berlim na manhã da última segunda-feira, 24, para juntarem-se às tropas da União Europeia. Está previsto...”.

Mil coisas passavam em minha cabeça, não conseguia me concentrar totalmente no que estava escrevendo. Recomecei:

“As forças armadas americanas chegaram à Berlim na manhã da última segunda-feira, 24, para juntarem-se às tropas da União Europeia. Está previsto que as forças armadas brasileiras cheguem nos próximos dias para reforçarem e intensificarem os ataques no ponto mais acessível a Rússia, a confusa Crimeia...”

Dessa vez fluiu, escrevi o bastante para talvez agradar o querido editor – um homenzinho gorducho de trejeitos e tiques estranhos, difícil de agradar. Pude explicar processos políticos e econômicos delicados, como o fechamento do mercado externo entre os países de cada lado da guerra e seus déficits. A possível imigração livre de povos aliados para o Brasil, alguns pontos positivos e a certeza dos problemas que isso causaria. As revoltas sociais que por ventura viessem a ocorrer. As medidas que o governo recém-eleito talvez terá de tomar ante a situação, e as possíveis consequências de todo esse processo para o futuro do Brasil. Minha vaidade considerou tudo o que foi escrito, bem sintetizado e explicado. Comemorei com mais um gole de uísque.


Mandei o artigo por e-mail, não havia mais nada a fazer. Fitei a janela, observei a chuva. Quase adormeci...

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

2027 (Parte 4)

– “Tropas americanas desembarcam na Alemanha e na Índia, os ataques...”.

Acordei de súbito, assustado pelo volume alto da TV, e... Puta merda, eu dormi! Não podia ter me dado a esse luxo. O mundo perto do fim, e eu cheirando a uísque, babando, com a cabeça doendo e sem matéria alguma para entregar ao jornal. Sai de cima de alguns rascunhos que estavam sobre a mesa – nada importante. Eu precisava fumar. Chovia lá fora, mas eu queria abrir a janela mesmo assim, ela ficava à direita da minha poltrona. Segurei-a – era daquelas de correr –, sua base estava úmida, a forcei para cima... Mas não subia, estava emperrada. Fiz mais força e meus braços escorregaram, cedendo o cotovelo sobre o vidro, trincando-o. “DROGA!” – berrei – Mas eu não queria me estressar naquele momento. A dor de cabeça já bastava. Acendi o cigarro e fumei-o sem a janela.


Eu escrevia para o caderno de política, e tinha de encher as linhas de linguiça explicando de que forma a Rússia atacou os Estados Unidos – com as bombas hora! Mas esse era o jogo, eles adoravam os pormenores. O telefone tocou:


– Alô?

– Bom dia senhor, gostaria de conhecer nossos serviços de telefo...


– Vá te foder! – bradei, o interrompendo e desligando o telefone.


Minha barba estava por fazer, eu gostava dela daquele jeito. Fui à cozinha buscar o que beber, tinha álcool ou álcool, optei pelo álcool – eu estava sem fome. Talvez eu fosse alcoólatra, mas não importava, eu pensava melhor bêbado, e aquilo me sustentava, saciando meu vicio e garantindo minha sobrevivência. Isso tornava a bebida minha benção e minha maldição. 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

2027 (Parte 3)

(...)
O cigarro acabou, mas eu ainda possuía dois maços dele, isso me alegrava em meio a tanta monotonia. Lembrei-me do vinho, o bebi sedento. Tornei a gravar:

“Pós a guerra, não havia mais governo. A sociedade que sobrou se organizou como deu. Remanescentes criaram pequenas colônias – faço parte duma. Nos alimentamos de alguns animais urbanos, e principalmente de alimentos ainda consumíveis encontrados em locais abandonados – orgulho-me do meu vinho. Tudo isso é limitado, mas ninguém importa-se, vivemos um dia de cada vez, e quando tivermos de morrer, morreremos. Não há mais diferença de morrer hoje ou daqui há anos...”

Pausei novamente, o sol estava se pondo, e contemplando aquele espetáculo, me dei conta do tempo que havia passado, eu não sabia ao certo que horas eram, mas devia ser entre cinco e meia e cinco e quarenta. Mas isso não tinha mais importância.
Escureceu. Levantei-me custosamente para pegar uma vela que estava em cima da geladeira, esgueirando-me para não esbarrar nos caixotes. Acendi-a com o resto de isqueiro que eu ainda tinha. Sentei de volta na poltrona, e senti o cansaço pesando em meu corpo. Bebi mais um gole do vinho que repousava em cima da escrivaninha há umas horas e adormeci.
(...)

quinta-feira, 24 de julho de 2014

2027 (Parte 2)

(...)
“Não existe mais direito, não existe pudor, não existe sociedade, não existem mais governantes, não existe economia. Nada. Apenas o caos, a desordem, o anarquismo descontrolado e a própria subsistência. A humanidade está perto de sumir.”

“Bem, tudo teve início naquele mês de agosto ou setembro – não me recordo – de 2015, a tensão entre Rússia e Estados Unidos chegou ao limite, a Coréia do Norte invadiu a Coréia do Sul, e então veio a guerra – Sim, a Terceira Guerra Mundial –, os Estados Unidos foi o primeiro atingido pela bomba lançada pelos Russos, a explosão destruiu um terço do norte do continente Americano, o Canadá sumiu. O revide iniciou com as tropas americanas invadindo a Rússia. A União Europeia declarou-se aliada a terra do Tio Sam. Os chineses e os norte-coreanos aliaram-se aos Russos. Israelitas tomaram Gaza. O Brasil abriu suas portas para a chegada de estrangeiros ligados às forças do Estados Unidos e de seus aliados. A guerra durou nove anos, e nesse meio tempo houve guerras civis no Brasil. O hospitaleiro povo brasileiro rebelou-se contra as medidas de cortes e gastos do governo, e contra a superlotação do país, que atingira a marca de mais de meio bilhão de habitantes. A natureza também rebelou-se, o oceano subiu, ilhas e países baixos sumiram. Terremotos separaram partes de terras de alguns continentes, e também dizimaram alguns países. A fome chegou, bilhões e bilhões morreram. A guerra terminou, não houve vencedor, todos perderam...”

Pausei a gravação, resolvi parar um pouco, pois estava cansado, o calor era quase sempre insuportável. O clima mudou muito durante e após a guerra, provavelmente devido aos danos das bombas e aos danos causados pelo homem. As estações do ano eram obsoletas. Raramente chovia e quase sempre o sol reinava durantes os dias. As noites eram muito frias, e a água escassa. Excepcionalmente, um clima desértico.
(...)

terça-feira, 22 de julho de 2014

2027 (Parte 1)

Voltei ao meu apartamento. Fui à cozinha buscar minha última garrafa de vinho que eu conservava para momentos derradeiros – como este. Peguei um copo. Não havia nada demais naquela cozinha, apenas uma pequena geladeira – abastecida por uma bateria de carro perto de morrer –, alguns caixotes e o cheiro de mofo e umidade que exalava das paredes sutilmente rachadas. Sentei na poltrona de coro surrado e aconchegante que ficava ao lado da janela com os vidros trincados. Abasteci meu copo, desenterrei o gravador antigo que eu usava como registro das minhas entrevistas, ele estava entre uns papéis e correspondências inúteis na escrivaninha à minha direita. Acendi um cigarro velho, traguei-o, e comecei:

“12 de setembro de 2027, um sol de latejar as têmporas, jaz no nu céu enquanto seus raios vestem a paisagem seca e abandonada de São Paulo. Gravo essa mensagem de maneira impaciente e esperançosa, como registo para futuras gerações, mas talvez não exista mais futuro”. Bebi com gosto aquele primeiro gole de vinho.

(...)

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Maldita orquestra

Mau acordo, e os irritantes fogos atingem-me colérico. Lembro-me do dia que é, doze, estreia do Brasil na copa. "Legal", penso. Procuro meu café, meu livro, meus óculos. O sol ainda tímido. Retomo a leitura de “O Estrangeiro”, e meu pensamento sobre a copa se torna tão indiferente quanto o de Meursault sobre mundo. Talvez, até inclinaria-me a torcer pelo país, com todo aquele sentimento patriótico verde e amarelo, mas não hoje, não quando as necessidades do país são deixadas de lado – como sempre foram - para sediar um evento que não deixará legado algum. A revolta nesse sentido nada adianta, apenas serve para revoltar-me mais, pois o tempo passa, entretanto, os problemas não.

Buzinas, cornetas, apitos, fogos, cornetas, buzinas, fogos, cornetas, apitos. Maldita orquestra. Notícias dividem-se em eufóricos tabloides abordando a copa, e os protestos que começaram logo cedo. Uns torcendo pelo Brasil, eu pelos protestos.

Cinco horas, e começa a palhaçada. Aos gols, a maldita orquestra ressoa agora com um novo instrumento, os gritos. 

terça-feira, 13 de maio de 2014

Copa Imundo

A Copa do Mundo é um evento privado organizado pela FIFA. O evento reúne as melhores seleções do planeta para disputar a tão cobiçada taça de campeão. Cruamente é um belo evento, mas há suas adversidades.

Sediar um evento como esse, exige um grande preparo e uma grande infraestrutura do país sede. Problemas sociais, na saúde, na educação e na segurança devem ser mínimos, ou nenhuns, pois o país abrigará milhares de turistas, e o legado será a imagem que for passada pelo povo.

O Brasil não está preparado. Um país submisso à corrupção não está apto para receber um evento de tal magnitude. Não temos hospitais decentes, faltam médicos, a educação é uma das piores do mundo. Somos uma das maiores economias do mundo, e ao mesmo tempo um dos países mais desiguais. Somos um povo hipócrita, conformados; criados na cultura da farra, da bunda e do futebol.

Em 2007, o ex-ministro dos Esportes, Orlando Silva, garantiu que não seria gasto ‘um centavo’ em reformas ou criações de estádios para a Copa, porém não é o que vemos. Foram gastos dezenas de bilhões de reais nas reformas e na criação de novas arenas. E além dos bilhões gastos, alguns estádios, como o Arena Amazonas, ficarão a mercê do nada após a copa, pois não obterão um custo benefício viável para manter-se.

O esforço que o governo está fazendo para maquiar os problemas do país é maior que o esforço que fazem para resolvê-los. Veremos um maior vigor da polícia em inibir qualquer tipo de manifestação, principalmente aquelas que forem perto dos estádios. E a copa será marcada pelas vaias, pelos inúteis gritos de gol, pelo sorriso do fraco e pela indignação do forte.

Um país deficiente não deveria sediar coisa alguma. A Copa não trará nenhum tipo de benefício para o país. Ainda falta muito para podermos realmente sediar algo de maneira transparente e competente, porém o que importa é a felicidade de um ignorante massa.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Abortar, ou não abortar? Eis a questão 2.0

Ter filhos não é nada fácil. Os genitores hão de arcar com inúmeras responsabilidades. Dentre elas, as mais importantes são: uma boa estrutura familiar, e uma segurança financeira. Consequentemente quando há a gravidez indesejável – principalmente entre os jovens – os futuros pais não sabem como lidar com a situação, e então lhes aparecem primeiramente duas opções: abortar, ou encarar o desafio de criar uma criança.

Para muitos, o aborto é um crime hediondo, inafiançável, um assassinato contra a vida. Pois quebra princípios religiosos e morais de uma sociedade hipócrita. Doutrinas espiritualistas, como o catolicismo, são totalmente contra o método do aborto. Eles defendem o argumento de que a criança nascerá por vontade de Deus. Entretanto, há casos em que durante o pré-natal é descoberto doenças ou deficiências que comprometerão a vida da criança. E assim surgem as discussões controversas.

A anencefalia é uma deficiência rara, na qual a criança nasce não possuindo o cérebro. Ela ainda pode cientificamente viver através de aparelhos, porém não exerceria suas funções corporais básicas e dependeria totalmente da família. Porém, caso a maternidade não esteja preparada para atender adversidades desse porte, – como de fato é no Brasil - a criança morre. Ante essa questão, será que uma família há de carregar o fardo de ter de “criar” uma criança semimorta até a hora dela realmente partir?

Temos ainda o estupro, que pode levar a vítima a engravidar. Essa gravidez sem dúvida não seria bem vinda, pois uma experiência desse tipo leva quase todas suas vítimas a adquirirem traumas e síndromes que dificultariam o viver de suas vidas, e o da criança, que talvez viesse a nascer. Outro entrave é a paternidade dessa criança, que no caso, seria o estuprador, e nenhuma mulher que tenha desejo em ser mãe, desejaria ter como pai de seu filho, um delinquente. Tais acontecimentos dariam peso na opção do aborto, e o que poderia assentar de vez essa questão, são alguns direitos das mulheres, que de acordo com a ONU, são: Direito a vida; Direito a liberdade e à segurança pessoal; Direito a igualdade e a estar livre de todas as formas de discriminação; Direito a liberdade de pensamento; Direito a informação e a educação; Direito à privacidade; Direito à saúde e a proteção; Direito a construir um relacionamento conjugal e a planejar sua família; DIREITO A DECIDIR TER OU NÃO TER FILHOS E QUANDO TÊ-LOS; Direito aos benefícios do progresso científico; Direito à liberdade de reunião e participação política; Direito a não ser submetida a torturas e maltrato. Ou seja, pelo menos cinco itens estão diretamente relacionados com a decisão do aborto. Portanto, são direitos, e no mínimo deveriam ser respeitados, da mesma maneira que “respeitamos” a liberdade de cada individuo, que esta descrita na Declaração de Direitos Humanos de 1948, todavia, parece que a sociedade moralista e a religião estão acima deles.

Tais questões são realmente controversas, pois há um conforto e um tabu imposto por uma sociedade ignorante e totalmente submissa à religião, portanto sempre haverá discussões à cerca disso.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Dilema Brasil

Não é fácil ser brasileiro. Um país naturalmente belo tornar-se precocemente feio. A sujeira de baixo do tapete acumulada desde o descobrimento é vergonhosa e revoltante. O conformismo de um povo treinado a aceitar mentiras é humilhante. A ignorância plantada se faz valer todos os dias. O medo da miséria transforma os cidadãos em verdadeiros escravos, que vendem-se a salários ridículos a custo de sustentar uma minoria poderosa, que a mídia os tem como deuses.

A educação pública é precária. Alunos alienados, sem senso de mudança, sem perspectivas, submetem-se a cinco horas de blábláblá. Professores mal pagos submetem-se ao estrupo moral do sistema que os desmotivam a lecionar para uma multidão vazia. Grande parte do investimento direcionado a educação, passa pelo bolso de uns e de outros engravatados, e o que realmente sobra ninguém sabe para onde vai.

A segurança pública está abalada. Convivemos com uma guerra civil diariamente, disputas entre traficantes, homicídios acima da média, assaltos cada vez mais violentos, domínio e disputas de milícias, intervenção das Forças Armadas nos morros cariocas, e cidades do nordeste consideradas as mais violentas do mundo.

A saúde é de adoecer. Não temos médicos suficientes, e os que temos, ou pouco importam-se com a atual situação, ou já são suficientemente experientes, e já conformaram-se. A “nova safra” de médicos que há de se formar não possuem o mínimo interesse em integrar ao sistema público de saúde, justamente por não serem atraentes os benefícios e principalmente o salário. E diante das circunstâncias o que o governo faz? Importam médicos estrangeiros, e ao invés de fecharem esse “buraco”, preferem apenas encobri-lo no melhor “jeitinho brasileiro”.

Logo, um país com um dos maiores PIBs do planeta, não deveria encontrar-se em condições lixo como as são. E enquanto você assiste à novela, seu filho não sabe ler, seu marido está sendo assaltado, sua mãe está morrendo no leito esperando por um atendimento, e a arrecadação de imposto ultrapassa um trilhão de reais. Então, na hora do voto, não defeque na urna, vote nulo.