Fui
moça. Tive sonhos. O maior deles, que se fora, foi o anseio pela liberdade para
ser o que eu era – ou o que nunca realmente pude ser:
mulher. Hoje, velha e descrente, sou nada mais do que o resto dos meus
lamentos e privações de uma vida submissa.
Nasci
um anjo, como todos. Cresci alegre, feito todas as crianças. Brinquei e sorri e
chorei – igual ao mundo! – mas, nem por isso, pude exercer verdadeiramente
minha alma...
Tudo
começou quando eu desabrochara durante aquela manhã – 1942 –, onde o filete
escarlate escorreu-me sobre as coxas e tudo se fez novo. Corri até mamãe com
pavor, mas ela sorriu ante ao horizonte que agora desflorava-se. Não entendi
nada daquilo, eu estava apenas apavorada. Ela tentou me explicar, e após pouco
entender, sorri e a abracei – ainda com medo.
O tempo
passou e a puberdade veio para realizar sua mágica irremediável: os seios se
engrandeceram, o quadril e as coxas alargaram-se. Eu ficava mais sentimental;
menos e mais medrosa; mais e menos triste; menos e mais feliz; mais e menos
quieta; mais e mais agitada... presa num turbilhão de emoções sublimes e
infinitas.
Certo
dia, percebi como era prazeroso tocar-me lá – sim, lá, na
vagina – mas fiquei com medo. Era pecado? Acho que era... mas
sentir-se bem é mau aos olhos de Deus? Se sim, então perdoe-me, Senhor, senão,
obrigada, Senhor. Cada vez que conhecia mais meu corpo, ao toque, minha
mente suspirava e cada gesto me levava ao céu. Até que no limiar, no pico, no
clímax, eu via Deus.
Cresci
de vez e, à época, a minha família – a Deus –, tive
de casar cedo, contudo, contra minha vontade. Não pude chorar, não pude
brigar nem exigir ou defender o que eu queria... não havia juiz, a ordem dos
bons costumes era uma só... Eu era jovem, ingênua, boba, uma criança de
alma, ainda inocente. Mas assim se fez... minha liberdade ilusória passara da
validade... e meus sonhos, enfim, jaziam no papel passado, na aliança do falso
sentimento, no dote... Casei-me sem amor; sem amar.
Trinta
anos se foram. Trinta anos de desejos e anseios de ser eu, me foram negados sob
as asas do matrimônio. Eu fui o desejo dos outros. Lembro que íamos às festas, mas eu não podia dançar
sozinha, nem beber muito, nem conversar com outro homem descompromissadamente.
Lembro também que eu não podia trabalhar, mesmo com o tédio corroendo minha
sanidade. Lembro que não gostava de tricotar, mas o aprendi por força dos
costumes. Lembro que tinha poucas amigas e que nossa diversão se limitava ao
lar. Lembro que lia romances de amores verdadeiros, para me imaginar sendo
amada. Lembro que me apaixonara, certa vez, por um outro homem, porém, o amor
hipócrita era a prioridade, embora soubesse que era traída... hipocrisia é a
mãe do desamor. Lembro que o sexo nada mais era que um passatempo machista,
visto que o maior prazer eu mesma me proporcionava – ao toque –
enquanto ele apenas sanava suas necessidades fisiológicas... Tive filhos, e
eles foram a luz e a doçura entre muito tempo de dissabores. Amo-os e os amei o
máximo que pude, como que para compensar um afeto ao amor verdadeiro que nunca
tive.
Bem...
e quando meu marido se foi, calei-me, unicamente, e encontrei uma opaca luz de
liberdade, mesmo estando velha e desinteressante fisicamente. As rugas brotaram
lentamente, mas implacáveis. A pele perdia a textura e a maciez que a
caracterizavam... o brilho nos olhos se fizeram foscos e os cabelos eram
prata...
O tempo
passou. Dos meus filhos surgiram anjos que me trouxeram uma fresta da
felicidade que me retornara após anos. Acho que estava livre, mas era tarde
demais.
Agora
pergunto a quem puder ouvir meu pensamento: O que é ser mulher?

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