quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Uma Mulher

Fui moça. Tive sonhos. O maior deles, que se fora, foi o anseio pela liberdade para ser o que eu era – ou o que nunca realmente pude ser:  mulher. Hoje, velha e descrente, sou nada mais do que o resto dos meus lamentos e privações de uma vida submissa.
Nasci um anjo, como todos. Cresci alegre, feito todas as crianças. Brinquei e sorri e chorei – igual ao mundo! – mas, nem por isso, pude exercer verdadeiramente minha alma...
Tudo começou quando eu desabrochara durante aquela manhã – 1942 –, onde o filete escarlate escorreu-me sobre as coxas e tudo se fez novo. Corri até mamãe com pavor, mas ela sorriu ante ao horizonte que agora desflorava-se. Não entendi nada daquilo, eu estava apenas apavorada. Ela tentou me explicar, e após pouco entender, sorri e a abracei – ainda com medo.
O tempo passou e a puberdade veio para realizar sua mágica irremediável: os seios se engrandeceram, o quadril e as coxas alargaram-se. Eu ficava mais sentimental; menos e mais medrosa; mais e menos triste; menos e mais feliz; mais e menos quieta; mais e mais agitada... presa num turbilhão de emoções sublimes e infinitas. 
Certo dia, percebi como era prazeroso tocar-me lá –  sim, lá, na vagina –  mas fiquei com medo. Era pecado? Acho que era... mas sentir-se bem é mau aos olhos de Deus? Se sim, então perdoe-me, Senhor, senão, obrigada, Senhor. Cada vez que conhecia mais meu corpo, ao toque, minha mente suspirava e cada gesto me levava ao céu. Até que no limiar, no pico, no clímax, eu via Deus.
Cresci de vez e, à época, a minha família – a Deus –,  tive de casar cedo, contudo, contra minha vontade. Não pude chorar, não pude brigar nem exigir ou defender o que eu queria... não havia juiz, a ordem dos bons costumes era uma só...  Eu era jovem, ingênua, boba, uma criança de alma, ainda inocente. Mas assim se fez... minha liberdade ilusória passara da validade... e meus sonhos, enfim, jaziam no papel passado, na aliança do falso sentimento, no dote... Casei-me sem amor; sem amar.
Trinta anos se foram. Trinta anos de desejos e anseios de ser eu, me foram negados sob as asas do matrimônio. Eu fui o desejo dos outros. Lembro que íamos às festas, mas eu não podia dançar sozinha, nem beber muito, nem conversar com outro homem descompromissadamente. Lembro também que eu não podia trabalhar, mesmo com o tédio corroendo minha sanidade. Lembro que não gostava de tricotar, mas o aprendi por força dos costumes. Lembro que tinha poucas amigas e que nossa diversão se limitava ao lar. Lembro que lia romances de amores verdadeiros, para me imaginar sendo amada. Lembro que me apaixonara, certa vez, por um outro homem, porém, o amor hipócrita era a prioridade, embora soubesse que era traída... hipocrisia é a mãe do desamor. Lembro que o sexo nada mais era que um passatempo machista, visto que o maior prazer eu mesma me proporcionava – ao toque – enquanto ele apenas sanava suas necessidades fisiológicas... Tive filhos, e eles foram a luz e a doçura entre muito tempo de dissabores. Amo-os e os amei o máximo que pude, como que para compensar um afeto ao amor verdadeiro que nunca tive.
Bem... e quando meu marido se foi, calei-me, unicamente, e encontrei uma opaca luz de liberdade, mesmo estando velha e desinteressante fisicamente. As rugas brotaram lentamente, mas implacáveis. A pele perdia a textura e a maciez que a caracterizavam... o brilho nos olhos se fizeram foscos e os cabelos eram prata... 
O tempo passou. Dos meus filhos surgiram anjos que me trouxeram uma fresta da felicidade que me retornara após anos. Acho que estava livre, mas era tarde demais.
Agora pergunto a quem puder ouvir meu pensamento: O que é ser mulher?





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