domingo, 8 de outubro de 2017

Nota da Distração

Gosto de observar o céu, lembra-me liberdade. Mas me distraio muito facilmente. Uma certa aflição inexprimível me arrebata; deve ser apenas a condição de se estar vivo num domingo, muito embora as palavras "domingo" e "vivo", em seu cerne, não coadunam...
A mente clama por silêncio ao mesmo tempo em que está faminta por ação, por preenchimento, e isto, unicamente porque quer estar viva - sentir-se - mas, o corpo... o corpo sempre pende ao colchão, onde os luminosos anseios se tornam opacos, tornam-se obscuros - no escuro quarto.
Distraio-me muito facilmente. Em minha mente bolo mil planos, todos falíveis, todos confusos... É domingo. Domingo! O amanhã caminha feito o prisioneiro ao cadafalso; sendo o sonho deste dia, a guilhotina e, o despertar do outro, a cabeça - desconexa.
Distraio-me fácil. A perna inquieta, pra lá e pra cá, como que desejando a paz. Paz... Domingo. E o tempo como que parado, como que pesando sobre as costas - energia intragável.
Distraio-me facilmente. Às vezes, nada parece real e sinto-me parado numa marcha que não para nunca - vida?
Distraio-me facilmente. À cabeça, toneladas de ideias comprimidas, feito o universo todo durante o big bang. Quando explodirá?
Distraio-me facilmente, mas a tudo amo, a tudo sou grato, a tudo perdoo e, no âmago, sei que há sentido. Sei que tudo se conecta, tudo se comunica. Sei que, mesmo nada sabendo, a tudo também sei.
Distraio-me facilmente.