terça-feira, 30 de setembro de 2014

Amor'lheio

O amor é uma bela coisa. Essa coisa do amor está em tudo. Está na manhã cinza, está no banho tomado, na roupa passada, no cabelo molhado, no café esquentado, nos dentes escovados, no nariz soado, na barba não feita, no espelho encarado, nos passos apressados, no abraço da moça, e em teus beijos molhados.
Um olhar à aula na sala, e lá o amor endiabrado. Nos risos sonhados, nos gritos inchados, nas cadeiras rachadas, nas mesas riscadas, no chão turvado – de tão pouco lavado. Nas folhas vazias, tão brancas de nada. O amor na matemática esculachada, nas aulas perdidas jogadas ao lixo, e nos alunos falantes desinteressados a piorar. O amor, no português Carrasco, e este apaixonado com sua quarta a cultivar. A quarta da testa alva pelada e o outro do topete chapado que de tão belo ao seu lado, sorri alegrado com a quarta a conquistar.
De fato o amor é gozado, em tudo ele vive – seja preso, seja livre – nos mais simples fatos do cotidiano corriqueiro – jogado –, vivido e passado. Amor no passo arrastado da preguiça apressada, do abrir o negro portão, e ao sentar no colchão o lápis se põem a isso talhar. E com a mente a bicas no colo da não razão, o vão se esvai, e tudo que não rima, cai.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Doido Chico (Final)

Vai beber ? – perguntou-me novamente o cara do balcão.

– Não, obrigado monsieur – respondi-o educadamente.

– Mais meu nome é Carlos, rapaz – disse com ar de confusão.

Certo... Não beberei, Carlos – tornei sorrindo.

Enfim não havia sido tão ruim... A sarjeta... Esmolas... E em tantos anos nas ruas eu havia aprendido a ser gente, aprendi a ver o mundo real, aprendi a passar dificuldades, aprendi a sentir fome, frio, medo...  Uma bela bordoada que a vida me deu.
Agora eu via as pessoas como elas de fato são: seres de certezas incertas, fortes fragilidades, perfeitas imperfeições... Não importa quem seja, ou qual classe pertença, cor, ou o que faz. São todas assim.
Bem, eu tinha meu violão de volta, eu o recuperei há um tempo...

Eu estava passando por uma avenida perto daqui – o boteco era como meu astro rei... Eu girava em torno dele, e por mais que eu tentasse me afastar, a gravidade do malte me puxava novamente –, na ocasião eu fedia mais que o normal, pois o sol que castigava aos céus era escaldante, e seu fulgor fazia-me suar... Sempre quis saber donde saia tanta água. Na ocasião, eu voltava com algumas moedas no bolso da velha calça após mendigar ali perto, eu seguia em direção à praça para descansar um pouco, e quando lá cheguei, eu ri. Mirei um caboclo, velho, aparentemente um pouco mais novo que eu – uns cinquenta... Cinquenta e um... –, tocando violão sentado num banco, um maldito violão idêntico ao meu: as quatro cordas, os trastes gastos, o braço levemente curvado... Ponderei... E sim... Era o meu violão!
Fui de encontro ao querido maldito, seus olhos eram negros e esbugalhados, seus era lábios finos, seu cabelo era crespo e grisalho, e sua face maltratada pelo tempo carregava rugas exacerbadas. Abordei-o inocentemente:

– Ei amigo, belo violão, hein chapa! – disse com tom irônico camarada.

– Tu achas? – respondeu-me revelando, pela fineza de sua fala, que talvez fosse um rapaz que um dia foi abastado, como eu.

– Claro, tua estética rustica és poética... – eu não poderia enrolar... – Olha...

– Certo. Certo... Deixe de tolices. O quer de volta? – disse me cortando.

– Sem dúvida, mas como? Espere... – bufei confuso e pensativo.

– Eu dei-lhe a pancada – disse estampando uma faceta com um sorriso de malicia.

– Mas...?! Por que isso?

– Eu passava por aqui quando o vi cantando aquelas coisas; gostei do violão, e decidi roubar-lhe, simples.

– Sem pudores? Desavergonhadamente? – repliquei.

– Claro, amigo, olhe meu estado. Olhe vosso estado! O que há de pudor? Com o que preocupar-se? Eu tive apenas o esforço de dar- lhe o golpe... Ninguém se importa.

Pensei um momento... Ele tinha razão.

– Realmente... Tu és um gênio, admiro sua lógica.

– Obrigado, mas não sou nada. Pegue-o de volta, não me serve mais – disse levantando-se do banco e dando-me o violão, que se encontrava da mesma maneira que antes estava.

Eu de certo modo, deslumbrado pelo pensamento do meu novo “amigo”; sentia-me confuso, não sabendo se o cumprimentava ou o esbofeteava.

– Qual teu nome?

– Zé.

– Zé?

– Não, Antônio.

– Ah, imaginei. O meu é Chico... Exatamente, Chico.

– Prazer em conhecer-lhe, Chico... Vou indo, quem sabe nos encontramos nos becos escuros que a vida reserva para nós, mendigos senhores das ruas... – disse sorrindo, mostrando seus dentes amarelados.

– Até... E... Obrigado pelo violão... – Eu acho...

Acenou-me uma última vez e se foi... Eu ri.

Voltei à realidade, estava outra vez no boteco. Olhei para o relógio, eram quatro e vinte e sete. Levantei e fui até o balcão, chamei Carlos e disse:

– Vou beber .

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Doido Chico (Parte IV)


A chuva parou e de acordo com o relógio do boteco, era quatro e treze. Bem... A história da minha vida antes de parar na sarjeta...
Eu tinha acabado de me formar em economia e estava retornando ao Brasil com grandes expectativas, grandes sonhos e com um sentimento sublime de superioridade, esperando que tudo desse certo quando eu pisasse em solo brasileiro... Essas baboseiras da mocidade, ou da minha mocidade.  Mas mesmo sendo baboseiras, de fato tudo deu certo, uma semana após voltar para casa dos meus pais, tive uma breve conversa com meu pai, e ele me disse:

Ei moleque, tu há de trabalhar.

Onde?

– Banco.     
                                         
Quando?

Em breve.

Ótimo.

Mais uma conquista de maneira simples e vil como costumeiramente sempre foi – eu adorava isso, infelizmente adorava...

Esse era o tipo de conversa que eu tinha com meu pai: seca e breve. Sua rudez fazia parte da mascara de militar, pois eu quando criança o via sorrindo e trocando gracejos com mamãe. Mas com o tempo, de alguma forma essa máscara cravou-lhe na alma, e ele tornou-se realmente rude e frio.
No fim da minha adolescência, pouco antes de partir à Europa, mamãe brigava constantemente com ele, eram brigas feias. Mamãe não concordava com as coisas que ele fazia e nem com o curso que país seguia. As discussões duravam de minutos e às vezes horas, e eu tinha de ouvir tudo indiferentemente calado.
Quando voltei, a ditadura estava sob pressão. Crise no país, as diretas, o clamor pela democracia... E meu pai, também pressionado, parecia descontar seu descontentamento em mamãe, que igualmente revidava dizendo-o que ele estava errado em continuar fazendo ‘aquilo’ e que era insustentável, então ele replicava bradando a todo pulmão que ‘aquilo’ havia sustentado a família e principalmente ela. Eu sabia o que meu pai fazia, mas por que eu o contestaria estando confortavelmente bem de vida? Por que poria tudo a perder por outras pessoas?... Eu realmente fui um filho da puta.
Com o fim da ditadura e o reestabelecimento da democracia, mamãe divorciou-se de meu pai. Ingressei como bancário de acordo com o combinado, e então deu-se inicio a minha feliz decadência. No começo tudo eram flores, eu recebia, não fazia muita coisa, fodia os pobres – como já pensado – e ia para esbornia. Mulheres, bebidas, sexo... Foram momentos prazerosos; prazerosamente ilusórios. E num piscar de olhos vi que estava me afundando, endividando, devendo... E meu salário não era suficiente para manter o que eu fazia.
Após o divórcio e a perda do cargo, meu pai isolou-se dentro duma solidão profunda. O abatimento ao ver sua posição ruir diante de seus olhos, o desgosto pela esposa o ter abandonado, e tudo o que ele havia conquistado afundar totalmente, foram pancadas muito fortes que o atirou na solidão. Eu visitei-o algumas vezes antes de morrer, e em todas as minhas visitas eu via o vazio em seus olhos, o vazio nos seus jeitos, o vazio na sua fala... Como se sua alma tivesse partido há tempos... Era triste vê-lo assim, mas eu era indiferente... Eu nunca fui muito próximo dele e, portanto era uma tristeza hipócrita, uma espécie de obrigação de sentir-se triste por se tratar de um familiar... Por ser meu pai. Quando morreu, segui as tradições, e o que nunca existiu em mim, foi enterrado. Minha vida prosseguiu...
Com mamãe foi totalmente diferente... Mamãe era uma moça amorosa, inteligentíssima e bela. Seus fortes olhos azuis se destacavam na singela face pálida. Seu dom em transmitir conhecimento era ímpar, ela me ensinou a ler e a escrever... Deu-me amor, refúgio e segurança, foi uma mãe completa... Perfeita.
Para ela o divorcio foi mais fácil, muito mais fácil, a separação representou sua liberdade que havia chegado ao fim no inicio da rudeza de meu pai. Eu a visitava, assim como fazia com meu pai, porém com maior frequência... A presença de mamãe para mim era agradável e essencial. Os traços da velhice começavam a surgir nela, mas sua agudeza vigorosa no espírito continuava a mesma. Conversávamos por horas, sempre rindo, sempre felizes.
Com o passar do tempo, mamãe adoeceu, e eu não tinha mais tempo para vê-la, as besteiras que eu fazia engoliam-me. Quando finalmente mamãe veio a falecer, senti a maior dor de todas, senti a verdadeira tristeza, a verdadeira amargura... Perdi os sentidos, perdi minha direção, não havia mais “papai” para me sustentar, nem mamãe para me afagar... Perdi-me... Afundei-me profundamente na bebida, perdi o emprego, e enfim, a sarjeta me encontrou.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Doido Chico (Parte III)

Eu sabia tocar violão, e rasgava um som no saxofone. Adquiri essas habilidades com um cara legal em Londres, durante minha passagem de estudo a Europa. Ele se chamava Johann e dizia-me: “This finger here, and this finger here ... Come with me ...” Eu o seguia e fui pegando jeito da coisa, não foi difícil. Eu também gostava de cantar, e embora minha voz carregasse uma rouquidão que me puxava este talento, eu simplesmente cantava. Essas habilidades me ajudaram algumas vezes a ganhar uns trocados e era a maneira mais engraçada de pedir esmola. Eu tinha de criar versinhos bobos na hora para chamar atenção dos que passavam por mim fingindo não me ver. Dedilhava o violão e cantava coisas como:

Ei,
Olhe pra mim amigo,
Estou em perigo, com fome e fodido,
Não me faça teu inimigo...

Ou:

Olá linda moça,
Moça da roupa vistosa,
Estou cansado,
Mas hei de comer – um dia,
Arrume-me uns trocados,
Agilize minha reles alegria...

Eram verdadeiras merdas de arte, mas eu tinha fome e precisava batalhar meus trocados. Infelizmente – ou felizmente –, tive de parar com os solfejos improvisados, pois roubaram-me o violão... Não era bem um violão, ele possuía apenas quatro cordas, mas ainda assim era-me de grande utilidade e fazia um som legal, além do valor sentimental que eu havia depositado nele.
O episódio do roubo foi engraçado... Eram quatro horas da tarde, eu não tinha relógio, mas o carro do churros estava passando, e ele passava sempre no mesmo horário, às quatro. O mês era maio, e como de costume, eu estava numa praça – bem perto do boteco que estou agora – cantarolando para os que passavam. A maioria voltava do trabalho, uns com o semblante abatido pelo cansaço, uns de cara fechada, outros com um leve suor correndo pelas têmporas, e alguns com tudo isso junto. A maioria deles não me dava bola, e raros me ajudavam com moedinhas... Eu os entendia, entendia os motivos de viveram daquele modo, entendia o porquê de não estarem minimamente felizes, e de não ligarem para minha presença. São como zumbis, robôs, todos programados e pensando: família, contas, casa, comer, trabalho, dinheiro, filho... Esses devaneios talvez os aturdissem...
Mas enfim, eu colocava uma espécie de pote alumínio a minha frente para receber uns trocados, e tocava o que eu sabia, tentando sempre ser – ou parecer – agradável. Umas moedas aqui, outras ali, algumas acolá... Quando caia a tarde e o sol começava a pôr-se – umas cinco e quarenta – eu me levantei recolhendo o apanhado do bendito dinheiro conseguido, o movimento na praça era semelhante ao das quatro.
Seguindo em direção ao boteco para gastar uns trocados em bebida, sinto uma pancada de súbito na altura da nuca e desmaio... Antes de perder totalmente a consciência ainda ouço uns gritos, e uns suspiros de espanto.
Não sei quanto tempo mais tarde, acordei confuso, amuado, tonto, com fome e cansado. E entre umas piscadelas e um bocejo, comecei a sentir falta de algo... O violão... PUTA MERDA! O VIOLÃO! Que diabo de pessoa rouba um diabo de violão velho de quatro cordas?! E detalhe: eu permanecia com o dinheiro.
Totalmente sem rumo e indignado, tento relembrar o fato e logo percebo que estava basicamente no mesmo local onde eu devo ter desabado... Refletindo momentaneamente, vejo mais uma vez quão grande é o descaso de ser para ser, pois não tiveram o mínimo de interesse em me chutar para um canto, deixaram-me estirado no meio do caminho, e com certeza prosseguiam passando por cima de mim – devia ser uma cena engraçada... Entretanto, como de costume, já estava acostumado com as lisonjeiras.