Anseios. A alma necessita de anseios, posto que é livre - ou, pelo menos, deve ser. O batuque latente das vontades humanas é combustível às ações que findam por nos definir: o que somos, o que fomos, o que seremos - realidade, memória e esperança, respectivamente.
"Basicamente, era por isso que eu escrevia: para salvar meu rabo, salvar meu rabo do asilo de doidos, das ruas, de mim mesmo." Hollywood, Bukowski
domingo, 19 de novembro de 2017
domingo, 8 de outubro de 2017
Nota da Distração
Gosto de observar o céu, lembra-me liberdade. Mas me distraio muito facilmente. Uma certa aflição inexprimível me arrebata; deve ser apenas a condição de se estar vivo num domingo, muito embora as palavras "domingo" e "vivo", em seu cerne, não coadunam...
A mente clama por silêncio ao mesmo tempo em que está faminta por ação, por preenchimento, e isto, unicamente porque quer estar viva - sentir-se - mas, o corpo... o corpo sempre pende ao colchão, onde os luminosos anseios se tornam opacos, tornam-se obscuros - no escuro quarto.
Distraio-me muito facilmente. Em minha mente bolo mil planos, todos falíveis, todos confusos... É domingo. Domingo! O amanhã caminha feito o prisioneiro ao cadafalso; sendo o sonho deste dia, a guilhotina e, o despertar do outro, a cabeça - desconexa.
Distraio-me fácil. A perna inquieta, pra lá e pra cá, como que desejando a paz. Paz... Domingo. E o tempo como que parado, como que pesando sobre as costas - energia intragável.
Distraio-me facilmente. Às vezes, nada parece real e sinto-me parado numa marcha que não para nunca - vida?
Distraio-me facilmente. À cabeça, toneladas de ideias comprimidas, feito o universo todo durante o big bang. Quando explodirá?
Distraio-me facilmente, mas a tudo amo, a tudo sou grato, a tudo perdoo e, no âmago, sei que há sentido. Sei que tudo se conecta, tudo se comunica. Sei que, mesmo nada sabendo, a tudo também sei.
Distraio-me facilmente.
domingo, 14 de maio de 2017
Tardes
Gosto do sabor das tardes preguiçosas - feito esta. A vida parece fluir lentamente, mas numa lentidão agradável, como que se suprimisse qualquer anseio que perturbe o já frágil equilíbrio.
Nesta tarde de domingo, a mesma energia típica que sempre a perfila está presente. Nesta tarde de domingo venta, venta, como quem carrega para amanhã - segunda - qualquer sinal de pensamento mundano. Nesta tarde de domingo, o sol baixo por entre os algodões doce reflete diversas cores na parede de casa, enobrecendo a vista, enternecendo o coração.
Pois bem. Tudo passa. Tudo passará. Logo, sei que breve a escuridão nasce e com ela as preocupações do dia vindouro - segunda - surgem no espírito, fechando, assim, o ciclo semanal da montanha russa humana, que decidimos, inocentemente, chamar de vida.
quinta-feira, 11 de maio de 2017
Dos Dias
Acordar em dias de labuta é sacrifício, e embora a carne clame por mais dez minutos, o salto da beliche é sempre inevitável. Com o corpo ainda amolecido pelas poucas horas de sono, a olhadela no espelho é uma caixinha de surpresas para um diferente tipo de cabelo bagunçado diário. O banho quente surge como um consolo; o café nos permite caminhar.
A brisa da manhã, ainda que urbana, é fresca. O sol, quando dá as caras, é leve e acolhedor, assim como a energia da aurora humana que paira no ar.
O "busão", feito todos os dias, está lá. As pessoas do busão, - quietas, sonolentas, taciturnas - feito todos os dias, estão lá. As mesmas paisagens, impassíveis, imóveis, mas como que vivas, estão lá. No trem da ida, a mesma coisa; e a sociedade humana segue teu rumo. - mas para onde?
Como que num piscar de olhos, trabalho e rio e aprendo: lugar agradável. Seis horas voam e, já no trem novamente, a faculdade já se faz próxima. Neste percurso, a vida se torna interessante. As pessoas agora mais ou menos despertas expressam no olhar mil sentimentos absolutamente inteligíveis e, ao mesmo tempo, inexprimíveis às nossas bocas ainda limitadas. Os trabalhadores do "shoptrem" - injustiçados? - vagueiam pelos vagões fazendo ecoar a plenos pulmões seus bordões na esperança de unicamente sobreviver: "Pururuca um real", "Ó a água, refresca, hidrata", "Halls um real"... alguns gracejam, a tragédia alia-se à comédia. Seguindo o grito dos bordões surgem as cochichadas e os papos que voam de lábios esparsos e mentes vazias.
Barra Funda. Baldeação.
Cada embarque no metro é como uma tola arena de luta, as pessoas disputam e se espremem enquanto praguejam mutuamente de modo indigno a fim de tão somente economizarem tempo - será que economizam? - e, ainda que o economizem, será que vale a pena se humilhar? - parece-me que sim.
Perto da faculdade, o mundaréu de gente se esbarra aqui e acolá, apressados em por as mãos no diploma, e somente neste, prescindindo e terceirizando, ou nem isto, o conhecimento.
No final dessa batalha, com as ruas vazias, sob a sublime lua e os opacos pontos no céu, vejo-me quase em casa novamente - amém. Chego. O alimento sacia. A cama me abraça. E com a cabeça mergulhada no turbilhão da fadiga e dos pensamentos desconexos, afogo-me em sonhos.
domingo, 7 de maio de 2017
Finais de Domingo
Finais de domingo são tão reflexivos. Ficamos a sós com nós mesmos; pensamos no amanhã; em como a rotina retorná inexoravelmente para saciar-se de nós. Finais de domingo é o momento no qual olhamos nossos próprios vazios e refletimos sobre o que há de errado com a vida, o que há de errado conosco. Finais de domingo é o resumo da energia pesada que paira sobre o dia, enquanto permanecemos deitados fazendo qualquer coisa que nos distraia e nos desvie. Finais de domingo é discernir sobre tudo e não saber de nada. Finais de domingo... é como a vida; é como a morte; é renascer.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2017
Adultismo
As imagens que a luz do sol produz pela manhã é deleite aos olhos, enquanto a brisa que sopra de não sei qual direção nos tira o peso das preocupações inúteis e mundanas; mundanas mas inerentes. Mergulho no café, nada mais existe - ouço os pássaros.
Hoje as coisas estão diferentes, o adultismo nos transforma: trancamos alguns sonhos, sacrificamos certos desejos e nos entregamos despidos com a alma em frangalhos para que possamos ser enquadrados na algazarra da vida cinza e programada... contudo, contrariando a realidade, a busca pela verdadeira liberdade, a busca pelo sentido e, mais importante, a busca pela felicidade, ainda continua, mesmo em meio aos muros do destino.
Penso que não podemos consentir com a felicidade em momentos, posto que a memória é falha e os momentos são efêmeros. Penso que não podemos viver em prol do próximo fim de semana, do próximo feriado, das próximas férias, pois é como se cada dia de labuta fosse um martírio... penso eu tanta coisa... o que é o passado senão o punhado de fatos que nos lapidou ao que hoje somos... o que é o futuro senão o universo de incertezas da nossa mente frágil, isto é, inocente ilusão... e mais, o que é o presente senão a própria vida em movimento... e a vida! o que ela é senão o clarão da tempestade que ao mesmo tempo que ilumina o céu, nos assusta por parecer dantesca...
O dia está agradável, feito a bagunça do quarto. A fome pesa. A preguiça impera. Amanhã já trabalho. Adultismo...
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