sábado, 19 de março de 2016

Do Verão

Sinto o dia passar sem pressa. A brisa do verão que se esvai é leve; é sublime; é esparsa. Percebo os detalhes, cada um deles; como os do quarto, onde os livros empilhados lembram-me do tempo jogado fora, e onde, ainda, seu cheiro denota sonolência e preguiça - feito útero materno ou um ninho duma mãe pássaro qualquer; mas sua bagunça me conforta... da sala a televisão cospe bobagens, o Téo dorme só - só dorme - e o sofá vinho seduz. Do fundo de casa a visão é sempre bela com o sol a imperar e esbanjar suas madeixas douradas de calor. As casas se observam, as nuvens dançam um ballet incessante num quadro de infinito azul - mas ora branco e dourado e lilás e púrpura ora cinza e negro...
A ociosidade é uma benção: anestesia o anseio de viver logo, amar logo, sofrer logo... anestesia a nossa vontade de nos sentirmos cotidianamente vivos, e talvez úteis - mas quem se importa verdadeiramente? 
Um suspiro... um olhar sóbrio ao brilho desta caneta que me auxilia; me auxilia a prosar.

domingo, 6 de março de 2016

Olhos de Alma

Fechei os olhos para a realidade 
E vi-me lúcido na escuridão 
Quando os abri
A luz me exibiu suas trevas
Assustando-me
Fechei os olhos 
E não havia mais dor
Não haviam posses 
– Nem poses
Tudo era um 
Havia, também, igualdade e justiça
Pois 
Todos eram nada 
Abri os olhos e havia medo 
Havia ódio
Havia disputa
Segregação entre iguais
– Era mesquinho
Nas trevas 
Ao fechar os olhos
Era como se tudo fosse paz 
Harmonioso...
Abri os olhos 
E vi o caos no silêncio
A maldade no sorrir
E
A malícia na inocência

Não abro os olhos...
Não abra