Voltei ao meu
apartamento. Fui à cozinha buscar minha última garrafa de vinho que eu
conservava para momentos derradeiros – como este. Peguei um copo. Não havia nada
demais naquela cozinha, apenas uma pequena geladeira – abastecida por uma bateria
de carro perto de morrer –, alguns caixotes e o cheiro de mofo e umidade que
exalava das paredes sutilmente rachadas. Sentei na poltrona de coro surrado e
aconchegante que ficava ao lado da janela com os vidros trincados. Abasteci meu
copo, desenterrei o gravador antigo que eu usava como registro das minhas
entrevistas, ele estava entre uns papéis e correspondências inúteis na
escrivaninha à minha direita. Acendi um cigarro velho, traguei-o, e comecei:
“12 de setembro de
2027, um sol de latejar as têmporas, jaz no nu céu enquanto seus raios vestem a
paisagem seca e abandonada de São Paulo. Gravo essa mensagem de maneira
impaciente e esperançosa, como registo para futuras gerações, mas talvez não
exista mais futuro”. Bebi com gosto aquele primeiro gole de vinho.
(...)
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