terça-feira, 22 de julho de 2014

2027 (Parte 1)

Voltei ao meu apartamento. Fui à cozinha buscar minha última garrafa de vinho que eu conservava para momentos derradeiros – como este. Peguei um copo. Não havia nada demais naquela cozinha, apenas uma pequena geladeira – abastecida por uma bateria de carro perto de morrer –, alguns caixotes e o cheiro de mofo e umidade que exalava das paredes sutilmente rachadas. Sentei na poltrona de coro surrado e aconchegante que ficava ao lado da janela com os vidros trincados. Abasteci meu copo, desenterrei o gravador antigo que eu usava como registro das minhas entrevistas, ele estava entre uns papéis e correspondências inúteis na escrivaninha à minha direita. Acendi um cigarro velho, traguei-o, e comecei:

“12 de setembro de 2027, um sol de latejar as têmporas, jaz no nu céu enquanto seus raios vestem a paisagem seca e abandonada de São Paulo. Gravo essa mensagem de maneira impaciente e esperançosa, como registo para futuras gerações, mas talvez não exista mais futuro”. Bebi com gosto aquele primeiro gole de vinho.

(...)

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