Sinto o dia passar sem pressa. A brisa do verão que se esvai é leve; é sublime; é esparsa. Percebo os detalhes, cada um deles; como os do quarto, onde os livros empilhados lembram-me do tempo jogado fora, e onde, ainda, seu cheiro denota sonolência e preguiça - feito útero materno ou um ninho duma mãe pássaro qualquer; mas sua bagunça me conforta... da sala a televisão cospe bobagens, o Téo dorme só - só dorme - e o sofá vinho seduz. Do fundo de casa a visão é sempre bela com o sol a imperar e esbanjar suas madeixas douradas de calor. As casas se observam, as nuvens dançam um ballet incessante num quadro de infinito azul - mas ora branco e dourado e lilás e púrpura ora cinza e negro...
A ociosidade é uma benção: anestesia o anseio de viver logo, amar logo, sofrer logo... anestesia a nossa vontade de nos sentirmos cotidianamente vivos, e talvez úteis - mas quem se importa verdadeiramente?
Um suspiro... um olhar sóbrio ao brilho desta caneta que me auxilia; me auxilia a prosar.

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