Um dia como outro qualquer.
Acordar, descer do beliche - desengonçadamente - esforçando-me para não cair.
Lavar o rosto, abatido pelo travesseiro, lembrar-me dos óculos, calçar os
chinelos. Ir à cozinha olhar a paisagem urbana-poluída-nublada ao fundo da janela,
e, finalmente, beber o café, que misturado à fome pós-sono transforma-se na
bebida mais aconchegante criado pelo homem.
Escola... mesmas caras, mesmo
cheiro, mesmo barulho dos lápis e canetas riscando a folha, com a expectativa
do bendito visto. Mesmo tipo de papel a trafegar o céu da sala, que
manuseados pelas mãos certas irrita o mais zen dos seres. Troca de aula, e
dependendo da matéria há uma leve torcida para que o professor em questão
tenha contraído uma leve gripe. No intervalo, os mesmos casaizinhos que no mês
seguinte estarão com outros, abraçam-se. Na “xepa”, as tias, que nem ao menos
são irmãs da minha mãe, ou do meu pai, servem aquela mesma gororoba, no mesmo
prato de plástico - de cor azul - com o mesmo talher de plástico, oleoso, escorregadio
e suave, onde é tragado para preencher o vazio do estômago.
Mirando a cantina, vejo o
dinheiro do suor dos pais sendo gasto em açúcar e sal envolvido por massa,
plástico, corante, gás e água. E, refletindo momentaneamente, penso que essa
classe que consome esses bagulhos deliciosos na cantina pode ser classificada
como a “burguesia escolar”, mesmo, embora, sabendo que não são ricos, esbanjam
suas belas roupas, seus sorrisos incompletos, e suas caras devastadas pela
maquiagem da Avon. De certa forma, esses burgueses são mais “abonitados” e
felizes, do que a classe “xepeira-plebeia escolar”, que por sua vez não são tão
bonitos e felizes, pois inibem o sorriso e preocupam-se apenas com o cardápio de
amanhã, torcendo para que não seja arroz e ovo – espero que não seja arroz e
ovo...
Ainda no intervalo, temos a
rádio que basicamente é formada por alunos e dirigida por um professor que
usa óculos parecidos com os meus, e cujo sobrenome rima com churrasco. Ela não
é de agradar a todos – Mas nem Jesus agradou a todos – entretanto, às vezes
quebra um galho, outras vezes não.
Após o intervalo, a única coisa
que ocupa a cabeça dos alunos, e a minha também, é que horas iremos sair.
Deixando a escola, na saída, vejo os empinadores esbanjando o ridículo a
custo de tentar impressionar as mais ingênuas, como um macho alfa impondo seu
respeito. Um pouco adiante, vejo os comerciantes daquela plantinha que quando
tragada deixa os olhos vermelhos e os movimentos “abaianizados”. E as senhoras
perueiras, tão focadas em cumprir rapidamente seu horário e tão dispersas a
ponto de passar por cima de alguém e pensar que foi lombada.
Já em casa com, o computador a
todo vapor, logado ao facebook contemplo marmanjos que se passam por
românticos. Mocinhas quadradas exibindo suas curvas ao espelho, rixas e
briguinhas inúteis. Corações partidos; partidos sem ao menos saberem o significado de partir... E para finalizar a emocionante rotina, leio, escrevo,
alimento-me, banho-me, durmo. E no dia seguinte a história se repete, pelo
menos, até os próximos anos.
Bruno.
ResponderExcluirEscreve bem. A sua prosa minimalista é encantadora, uma criação rápida, voraz de imagens e sugestões.
Parece que conseguiu fugir do cabresto da Educação, um olhar sensível ao redor. Uma análise ímpar do cotidiano escolar.
Abraço.