segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Sociedade Escola


Um dia como outro qualquer. Acordar, descer do beliche - desengonçadamente - esforçando-me para não cair. Lavar o rosto, abatido pelo travesseiro, lembrar-me dos óculos, calçar os chinelos. Ir à cozinha olhar a paisagem urbana-poluída-nublada ao fundo da janela, e, finalmente, beber o café, que misturado à fome pós-sono transforma-se na bebida mais aconchegante criado pelo homem.
Escola... mesmas caras, mesmo cheiro, mesmo barulho dos lápis e canetas riscando a folha, com a expectativa do bendito visto. Mesmo tipo de papel a trafegar o céu da sala, que manuseados pelas mãos certas irrita o mais zen dos seres. Troca de aula, e dependendo da matéria há uma leve torcida para que o professor em questão tenha contraído uma leve gripe. No intervalo, os mesmos casaizinhos que no mês seguinte estarão com outros, abraçam-se. Na “xepa”, as tias, que nem ao menos são irmãs da minha mãe, ou do meu pai, servem aquela mesma gororoba, no mesmo prato de plástico - de cor azul - com o mesmo talher de plástico, oleoso, escorregadio e suave, onde é tragado para preencher o vazio do estômago.
Mirando a cantina, vejo o dinheiro do suor dos pais sendo gasto em açúcar e sal envolvido por massa, plástico, corante, gás e água. E, refletindo momentaneamente, penso que essa classe que consome esses bagulhos deliciosos na cantina pode ser classificada como a “burguesia escolar”, mesmo, embora, sabendo que não são ricos, esbanjam suas belas roupas, seus sorrisos incompletos, e suas caras devastadas pela maquiagem da Avon. De certa forma, esses burgueses são mais “abonitados” e felizes, do que a classe “xepeira-plebeia escolar”, que por sua vez não são tão bonitos e felizes, pois inibem o sorriso e preocupam-se apenas com o cardápio de amanhã, torcendo para que não seja arroz e ovo – espero que não seja arroz e ovo...
Ainda no intervalo, temos a rádio que basicamente é formada por alunos e dirigida por um professor que usa óculos parecidos com os meus, e cujo sobrenome rima com churrasco. Ela não é de agradar a todos – Mas nem Jesus agradou a todos – entretanto, às vezes quebra um galho, outras vezes não.
Após o intervalo, a única coisa que ocupa a cabeça dos alunos, e a minha também, é que horas iremos sair. Deixando a escola, na saída, vejo os empinadores esbanjando o ridículo a custo de tentar impressionar as mais ingênuas, como um macho alfa impondo seu respeito. Um pouco adiante, vejo os comerciantes daquela plantinha que quando tragada deixa os olhos vermelhos e os movimentos “abaianizados”. E as senhoras perueiras, tão focadas em cumprir rapidamente seu horário e tão dispersas a ponto de passar por cima de alguém e pensar que foi lombada.
Já em casa com, o computador a todo vapor, logado ao facebook contemplo marmanjos que se passam por românticos. Mocinhas quadradas exibindo suas curvas ao espelho, rixas e briguinhas inúteis. Corações partidos; partidos sem ao menos saberem o significado de partir... E para finalizar a emocionante rotina, leio, escrevo, alimento-me,  banho-me, durmo.  E no dia seguinte a história se repete, pelo menos, até os próximos anos.

Um comentário:

  1. Bruno.

    Escreve bem. A sua prosa minimalista é encantadora, uma criação rápida, voraz de imagens e sugestões.

    Parece que conseguiu fugir do cabresto da Educação, um olhar sensível ao redor. Uma análise ímpar do cotidiano escolar.

    Abraço.

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