quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Doido Chico (Parte I)


Bem, eu vivia na sarjeta... Espere. “Bem” não é a palavra certa. Talvez “mal”... Hm... Isso... Mal! Mal, eu vivia na sarjeta. Na verdade eu era a sarjeta. Residia nas ruas, sempre vagabundeando a conseguir uns trocados para viver.  Era uma verdadeira merda, mas uma bela aventura. Com o tempo, acabei gostando da coisa, e mesmo se não gostasse, eu não tinha escolha. Eu fui um dia esses senhores que ostentavam seus ternos, sapatos bem lustrados, belos carros e lindas casas, agora, restava-me pouco mais que minha pequena dignidade. Não era muita coisa, talvez minha barba valesse mais que minha dignidade, ou até mesmo meu velho chapéu valesse mais que minha dignidade.
Estou nesse exato momento numa mesa de boteco dentro da minha cabeça ponderando sobre a vida, a minha vida... Gozado, essas porcarias de estabelecimentos sempre cheirarem a urina e cerveja. Acho que eu cheirava àquilo... E os clientes, quando não estão bebendo e tagarelando porcarias, estão mijando, se não estão mijando, estão tagarelando e bebendo porcarias... Mas não importa. Hm... Deixa-me pensar... Faziam – dez... Vinte... Um... Dois... – vinte e cinco anos que eu esteva neste estado. Neste estado de espirito, neste estado de sanidade, de gatunagem, de não ter um teto... Na sarjeta. Eu com certeza havia endoidecido nesse tempo, mas todos endoidecem... E afinal, o que é não ser doido? Um bom cargo? Um carro? Uma casa? Casamento? Filhos? Família? – Argh – Tudo isso me enjoava, deixe para lá.
Ah... Já viajei muito, ainda viajo muito, mas não muito quanto antes. Estou velho, cinquenta e sete ou oito, ou nove anos... Sei lá, mas estou velho. As pernas não são ágeis como antes, minha visão não é certa como antes, meus pulmões não funcionam como antes, nada é como antes. Nunca fumei, sempre bebi. Já fui de tudo e de todos, já fiz tudo. Garçom, dançarino, puto – ainda o sou, mas de outro tipo -, palhaço, vendedor, malabarista, vigarista, flanelinha, músico, engraxate, gari, escravo, homem, mulher e até bancário... Sim, bancário, eu tinha grana, bastante grana. Minha função era foder os pobres e rir com gosto de suas desgraças. Já tive muito, agora, nada.

Foi bom ter endoidecido...

Nenhum comentário:

Postar um comentário