terça-feira, 12 de agosto de 2014

2027 (Parte 5)


Voltei a sentar na poltrona, me pus a pensar, pensar e pensar. Comecei a escrever. Eu tinha o estranho hábito de escrever minhas matérias primeiramente no papel, e depois passá-las ao computador. Gostava de ver meu garrancho, as linhas tortas, os traços estranhos e tatear o lápis. Sentia-me como um artista. Um gole de uísque. Tentei algo:

“Terça-feira, 25 de agosto de 2015...”.

Comecei errado – cacete. Amassei a folha, tentei de novo:

“As forças armadas americanas chegaram à Berlim na manhã da última segunda-feira, 24, para juntarem-se às tropas da União Europeia. Está previsto...”.

Mil coisas passavam em minha cabeça, não conseguia me concentrar totalmente no que estava escrevendo. Recomecei:

“As forças armadas americanas chegaram à Berlim na manhã da última segunda-feira, 24, para juntarem-se às tropas da União Europeia. Está previsto que as forças armadas brasileiras cheguem nos próximos dias para reforçarem e intensificarem os ataques no ponto mais acessível a Rússia, a confusa Crimeia...”

Dessa vez fluiu, escrevi o bastante para talvez agradar o querido editor – um homenzinho gorducho de trejeitos e tiques estranhos, difícil de agradar. Pude explicar processos políticos e econômicos delicados, como o fechamento do mercado externo entre os países de cada lado da guerra e seus déficits. A possível imigração livre de povos aliados para o Brasil, alguns pontos positivos e a certeza dos problemas que isso causaria. As revoltas sociais que por ventura viessem a ocorrer. As medidas que o governo recém-eleito talvez terá de tomar ante a situação, e as possíveis consequências de todo esse processo para o futuro do Brasil. Minha vaidade considerou tudo o que foi escrito, bem sintetizado e explicado. Comemorei com mais um gole de uísque.


Mandei o artigo por e-mail, não havia mais nada a fazer. Fitei a janela, observei a chuva. Quase adormeci...

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