Abri os olhos, a vela
estava no seu fim e ainda estava escuro. Eu dormi, e devo ter sonhado com algo,
lembro-me apenas de alguns flashes e fios de lembranças... Não devia ser nada
de importante. Pensei em prosseguir com a gravação, mas uma ideia que me
consumia as entranhas desde o fim da guerra veio à tona. Terminei a gravação, acendi
outro cigarro. Levantei-me, deixei a fita em cima da poltrona, abri a janela e
sentei nela. Fazia muito frio, olhei para baixo e vi a pura escuridão. Lembranças
e recordações ofuscavam aquelas trevas.
Agora percebo o valor
dos carros indo e vindo, das tempestades de dezembro, da barulheira infernal
que agora traria paz a meu espírito, das pessoas nauseantes que hoje me aliviariam,
da atmosfera cinzenta que hoje daria cor à minha enfadonha existência... Nada mais
disso havia. Prevaleciam apenas as trevas e o abismo criado por mim.
Agora vejo até onde a ganância,
o ódio, a discórdia, a ignorância, a soberba pode nos levar. Chegamos nesse
mundo pensando sermos donos de tudo, e que éramos os senhores da Terra. A Terra
é a dona da Terra. Nunca compreendi as guerras objetivando a paz, nem a destruição
para o progresso. Tudo isso é incoerente, e o fim. é o resultado mais coerente
dessa incoerência. Não existe mais Deus, tampouco deuses, não existe fé, nem
força. Apenas o saudoso e inevitável fim.
Será que minha vida
tinha valido à pena? O que dela havia feito? – Pensei. Moleque tímido aos dez. Aluno
dedicado e preguiçoso aos dezesseis. Vagabundo e bêbado aos dezoito. Jornalista,
alcóolatra, libertino e fumante aos vinte e três. E agora, o que restou? O que fui? O que serei? O que há nesse jogo
de azar que é a vida? Para que jogá-lo, se o fim é sempre o mesmo para todos? Não
sei. Ninguém nunca sabe, ou jamais soube. Céu? Inferno? O nada?
Não havia mais nada a
pensar. Não queria pensar em mais nada. Comecei a cantarolar uma letra de
música que minha vó cantava para mim quando criança, ‘Hey Jude’, era seu nome.
Enquanto rasgava os versos, meu corpo tremia de frio. O cigarro estava na
metade, traguei-o.
Eu poderia voltar para
dentro, onde era quente – ou pelo menos mais quente que ali –, onde havia meu
vinho, a minha poltrona velha e surrada... O meu breve conforto. Ou poderia
mergulhar na escuridão; irresistível escuridão. Meu corpo clamava a voltar,
minha mente me segurava a ficar.
Estava decidido. Uma
última tragada, um último adeus. Meu corpo tremia. ”Tchau” – balbuciei
inutilmente com uma lágrima nos olhos. Olhei para baixo, larguei o fumo. Não
havia mais sentido viver para viver, e afinal, eu morreria em breve de qualquer
maneira. Tudo vacilou, e fui de encontro àquela escuridão fria, crua...
Nenhum comentário:
Postar um comentário