quarta-feira, 13 de agosto de 2014

2027 (Parte final)

Abri os olhos, a vela estava no seu fim e ainda estava escuro. Eu dormi, e devo ter sonhado com algo, lembro-me apenas de alguns flashes e fios de lembranças... Não devia ser nada de importante. Pensei em prosseguir com a gravação, mas uma ideia que me consumia as entranhas desde o fim da guerra veio à tona. Terminei a gravação, acendi outro cigarro. Levantei-me, deixei a fita em cima da poltrona, abri a janela e sentei nela. Fazia muito frio, olhei para baixo e vi a pura escuridão. Lembranças e recordações ofuscavam aquelas trevas.

Agora percebo o valor dos carros indo e vindo, das tempestades de dezembro, da barulheira infernal que agora traria paz a meu espírito, das pessoas nauseantes que hoje me aliviariam, da atmosfera cinzenta que hoje daria cor à minha enfadonha existência... Nada mais disso havia. Prevaleciam apenas as trevas e o abismo criado por mim.

Agora vejo até onde a ganância, o ódio, a discórdia, a ignorância, a soberba pode nos levar. Chegamos nesse mundo pensando sermos donos de tudo, e que éramos os senhores da Terra. A Terra é a dona da Terra. Nunca compreendi as guerras objetivando a paz, nem a destruição para o progresso. Tudo isso é incoerente, e o fim. é o resultado mais coerente dessa incoerência. Não existe mais Deus, tampouco deuses, não existe fé, nem força. Apenas o saudoso e inevitável fim.

Será que minha vida tinha valido à pena? O que dela havia feito? – Pensei. Moleque tímido aos dez. Aluno dedicado e preguiçoso aos dezesseis. Vagabundo e bêbado aos dezoito. Jornalista, alcóolatra, libertino e fumante aos vinte e três. E agora, o que restou?  O que fui? O que serei? O que há nesse jogo de azar que é a vida? Para que jogá-lo, se o fim é sempre o mesmo para todos? Não sei. Ninguém nunca sabe, ou jamais soube. Céu? Inferno? O nada?

Não havia mais nada a pensar. Não queria pensar em mais nada. Comecei a cantarolar uma letra de música que minha vó cantava para mim quando criança, ‘Hey Jude’, era seu nome. Enquanto rasgava os versos, meu corpo tremia de frio. O cigarro estava na metade, traguei-o.

Eu poderia voltar para dentro, onde era quente – ou pelo menos mais quente que ali –, onde havia meu vinho, a minha poltrona velha e surrada... O meu breve conforto. Ou poderia mergulhar na escuridão; irresistível escuridão. Meu corpo clamava a voltar, minha mente me segurava a ficar.

Estava decidido. Uma última tragada, um último adeus. Meu corpo tremia. ”Tchau” – balbuciei inutilmente com uma lágrima nos olhos. Olhei para baixo, larguei o fumo. Não havia mais sentido viver para viver, e afinal, eu morreria em breve de qualquer maneira. Tudo vacilou, e fui de encontro àquela escuridão fria, crua...

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