segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Doido Chico (Parte III)

Eu sabia tocar violão, e rasgava um som no saxofone. Adquiri essas habilidades com um cara legal em Londres, durante minha passagem de estudo a Europa. Ele se chamava Johann e dizia-me: “This finger here, and this finger here ... Come with me ...” Eu o seguia e fui pegando jeito da coisa, não foi difícil. Eu também gostava de cantar, e embora minha voz carregasse uma rouquidão que me puxava este talento, eu simplesmente cantava. Essas habilidades me ajudaram algumas vezes a ganhar uns trocados e era a maneira mais engraçada de pedir esmola. Eu tinha de criar versinhos bobos na hora para chamar atenção dos que passavam por mim fingindo não me ver. Dedilhava o violão e cantava coisas como:

Ei,
Olhe pra mim amigo,
Estou em perigo, com fome e fodido,
Não me faça teu inimigo...

Ou:

Olá linda moça,
Moça da roupa vistosa,
Estou cansado,
Mas hei de comer – um dia,
Arrume-me uns trocados,
Agilize minha reles alegria...

Eram verdadeiras merdas de arte, mas eu tinha fome e precisava batalhar meus trocados. Infelizmente – ou felizmente –, tive de parar com os solfejos improvisados, pois roubaram-me o violão... Não era bem um violão, ele possuía apenas quatro cordas, mas ainda assim era-me de grande utilidade e fazia um som legal, além do valor sentimental que eu havia depositado nele.
O episódio do roubo foi engraçado... Eram quatro horas da tarde, eu não tinha relógio, mas o carro do churros estava passando, e ele passava sempre no mesmo horário, às quatro. O mês era maio, e como de costume, eu estava numa praça – bem perto do boteco que estou agora – cantarolando para os que passavam. A maioria voltava do trabalho, uns com o semblante abatido pelo cansaço, uns de cara fechada, outros com um leve suor correndo pelas têmporas, e alguns com tudo isso junto. A maioria deles não me dava bola, e raros me ajudavam com moedinhas... Eu os entendia, entendia os motivos de viveram daquele modo, entendia o porquê de não estarem minimamente felizes, e de não ligarem para minha presença. São como zumbis, robôs, todos programados e pensando: família, contas, casa, comer, trabalho, dinheiro, filho... Esses devaneios talvez os aturdissem...
Mas enfim, eu colocava uma espécie de pote alumínio a minha frente para receber uns trocados, e tocava o que eu sabia, tentando sempre ser – ou parecer – agradável. Umas moedas aqui, outras ali, algumas acolá... Quando caia a tarde e o sol começava a pôr-se – umas cinco e quarenta – eu me levantei recolhendo o apanhado do bendito dinheiro conseguido, o movimento na praça era semelhante ao das quatro.
Seguindo em direção ao boteco para gastar uns trocados em bebida, sinto uma pancada de súbito na altura da nuca e desmaio... Antes de perder totalmente a consciência ainda ouço uns gritos, e uns suspiros de espanto.
Não sei quanto tempo mais tarde, acordei confuso, amuado, tonto, com fome e cansado. E entre umas piscadelas e um bocejo, comecei a sentir falta de algo... O violão... PUTA MERDA! O VIOLÃO! Que diabo de pessoa rouba um diabo de violão velho de quatro cordas?! E detalhe: eu permanecia com o dinheiro.
Totalmente sem rumo e indignado, tento relembrar o fato e logo percebo que estava basicamente no mesmo local onde eu devo ter desabado... Refletindo momentaneamente, vejo mais uma vez quão grande é o descaso de ser para ser, pois não tiveram o mínimo de interesse em me chutar para um canto, deixaram-me estirado no meio do caminho, e com certeza prosseguiam passando por cima de mim – devia ser uma cena engraçada... Entretanto, como de costume, já estava acostumado com as lisonjeiras.

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