Eu sabia tocar violão,
e rasgava um som no saxofone. Adquiri essas habilidades com um cara legal em
Londres, durante minha passagem de estudo a Europa. Ele se chamava Johann e dizia-me: “This finger here, and this finger here ... Come with me ...”
Eu o seguia e fui pegando jeito da coisa, não foi difícil. Eu também gostava de
cantar, e embora minha voz carregasse uma rouquidão que me puxava este talento,
eu simplesmente cantava. Essas habilidades me ajudaram algumas vezes a ganhar
uns trocados e era a maneira mais engraçada de pedir esmola. Eu tinha de criar
versinhos bobos na hora para chamar atenção dos que passavam por mim fingindo
não me ver. Dedilhava o violão e cantava coisas como:
Ei,
Olhe
pra mim amigo,
Estou
em perigo, com fome e fodido,
Não
me faça teu inimigo...
Ou:
Olá
linda moça,
Moça
da roupa vistosa,
Estou
cansado,
Mas
hei de comer – um dia,
Arrume-me
uns trocados,
Agilize
minha reles alegria...
Eram verdadeiras merdas
de arte, mas eu tinha fome e precisava batalhar meus trocados. Infelizmente –
ou felizmente –, tive de parar com os solfejos improvisados, pois roubaram-me o
violão... Não era bem um violão, ele possuía apenas quatro cordas, mas ainda
assim era-me de grande utilidade e fazia um som legal, além do valor
sentimental que eu havia depositado nele.
O episódio do roubo foi
engraçado... Eram quatro horas da tarde, eu não tinha relógio, mas o carro do
churros estava passando, e ele passava sempre no mesmo horário, às quatro. O
mês era maio, e como de costume, eu estava numa praça – bem perto do boteco que
estou agora – cantarolando para os que passavam. A maioria voltava do trabalho,
uns com o semblante abatido pelo cansaço, uns de cara fechada, outros com um
leve suor correndo pelas têmporas, e alguns com tudo isso junto. A maioria
deles não me dava bola, e raros me ajudavam com moedinhas... Eu os entendia,
entendia os motivos de viveram daquele modo, entendia o porquê de não estarem
minimamente felizes, e de não ligarem para minha presença. São como zumbis,
robôs, todos programados e pensando: família, contas, casa, comer, trabalho,
dinheiro, filho... Esses devaneios talvez os aturdissem...
Mas enfim, eu colocava
uma espécie de pote alumínio a minha frente para receber uns trocados, e tocava
o que eu sabia, tentando sempre ser – ou parecer – agradável. Umas moedas aqui,
outras ali, algumas acolá... Quando caia a tarde e o sol começava a pôr-se –
umas cinco e quarenta – eu me levantei recolhendo o apanhado do bendito
dinheiro conseguido, o movimento na praça era semelhante ao das quatro.
Seguindo em direção ao
boteco para gastar uns trocados em bebida, sinto uma pancada de súbito na
altura da nuca e desmaio... Antes de perder totalmente a consciência ainda ouço
uns gritos, e uns suspiros de espanto.
Não sei quanto tempo
mais tarde, acordei confuso, amuado, tonto, com fome e cansado. E entre umas
piscadelas e um bocejo, comecei a sentir falta de algo... O violão... PUTA
MERDA! O VIOLÃO! Que diabo de pessoa rouba um diabo de violão velho de quatro
cordas?! E detalhe: eu permanecia com o dinheiro.
Totalmente sem rumo e
indignado, tento relembrar o fato e logo percebo que estava basicamente no
mesmo local onde eu devo ter desabado... Refletindo momentaneamente, vejo mais
uma vez quão grande é o descaso de ser para ser, pois não tiveram o mínimo de
interesse em me chutar para um canto, deixaram-me estirado no meio do caminho,
e com certeza prosseguiam passando por cima de mim – devia ser uma cena
engraçada... Entretanto, como de costume, já estava acostumado com as
lisonjeiras.

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