sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Doido Chico (Parte IV)


A chuva parou e de acordo com o relógio do boteco, era quatro e treze. Bem... A história da minha vida antes de parar na sarjeta...
Eu tinha acabado de me formar em economia e estava retornando ao Brasil com grandes expectativas, grandes sonhos e com um sentimento sublime de superioridade, esperando que tudo desse certo quando eu pisasse em solo brasileiro... Essas baboseiras da mocidade, ou da minha mocidade.  Mas mesmo sendo baboseiras, de fato tudo deu certo, uma semana após voltar para casa dos meus pais, tive uma breve conversa com meu pai, e ele me disse:

Ei moleque, tu há de trabalhar.

Onde?

– Banco.     
                                         
Quando?

Em breve.

Ótimo.

Mais uma conquista de maneira simples e vil como costumeiramente sempre foi – eu adorava isso, infelizmente adorava...

Esse era o tipo de conversa que eu tinha com meu pai: seca e breve. Sua rudez fazia parte da mascara de militar, pois eu quando criança o via sorrindo e trocando gracejos com mamãe. Mas com o tempo, de alguma forma essa máscara cravou-lhe na alma, e ele tornou-se realmente rude e frio.
No fim da minha adolescência, pouco antes de partir à Europa, mamãe brigava constantemente com ele, eram brigas feias. Mamãe não concordava com as coisas que ele fazia e nem com o curso que país seguia. As discussões duravam de minutos e às vezes horas, e eu tinha de ouvir tudo indiferentemente calado.
Quando voltei, a ditadura estava sob pressão. Crise no país, as diretas, o clamor pela democracia... E meu pai, também pressionado, parecia descontar seu descontentamento em mamãe, que igualmente revidava dizendo-o que ele estava errado em continuar fazendo ‘aquilo’ e que era insustentável, então ele replicava bradando a todo pulmão que ‘aquilo’ havia sustentado a família e principalmente ela. Eu sabia o que meu pai fazia, mas por que eu o contestaria estando confortavelmente bem de vida? Por que poria tudo a perder por outras pessoas?... Eu realmente fui um filho da puta.
Com o fim da ditadura e o reestabelecimento da democracia, mamãe divorciou-se de meu pai. Ingressei como bancário de acordo com o combinado, e então deu-se inicio a minha feliz decadência. No começo tudo eram flores, eu recebia, não fazia muita coisa, fodia os pobres – como já pensado – e ia para esbornia. Mulheres, bebidas, sexo... Foram momentos prazerosos; prazerosamente ilusórios. E num piscar de olhos vi que estava me afundando, endividando, devendo... E meu salário não era suficiente para manter o que eu fazia.
Após o divórcio e a perda do cargo, meu pai isolou-se dentro duma solidão profunda. O abatimento ao ver sua posição ruir diante de seus olhos, o desgosto pela esposa o ter abandonado, e tudo o que ele havia conquistado afundar totalmente, foram pancadas muito fortes que o atirou na solidão. Eu visitei-o algumas vezes antes de morrer, e em todas as minhas visitas eu via o vazio em seus olhos, o vazio nos seus jeitos, o vazio na sua fala... Como se sua alma tivesse partido há tempos... Era triste vê-lo assim, mas eu era indiferente... Eu nunca fui muito próximo dele e, portanto era uma tristeza hipócrita, uma espécie de obrigação de sentir-se triste por se tratar de um familiar... Por ser meu pai. Quando morreu, segui as tradições, e o que nunca existiu em mim, foi enterrado. Minha vida prosseguiu...
Com mamãe foi totalmente diferente... Mamãe era uma moça amorosa, inteligentíssima e bela. Seus fortes olhos azuis se destacavam na singela face pálida. Seu dom em transmitir conhecimento era ímpar, ela me ensinou a ler e a escrever... Deu-me amor, refúgio e segurança, foi uma mãe completa... Perfeita.
Para ela o divorcio foi mais fácil, muito mais fácil, a separação representou sua liberdade que havia chegado ao fim no inicio da rudeza de meu pai. Eu a visitava, assim como fazia com meu pai, porém com maior frequência... A presença de mamãe para mim era agradável e essencial. Os traços da velhice começavam a surgir nela, mas sua agudeza vigorosa no espírito continuava a mesma. Conversávamos por horas, sempre rindo, sempre felizes.
Com o passar do tempo, mamãe adoeceu, e eu não tinha mais tempo para vê-la, as besteiras que eu fazia engoliam-me. Quando finalmente mamãe veio a falecer, senti a maior dor de todas, senti a verdadeira tristeza, a verdadeira amargura... Perdi os sentidos, perdi minha direção, não havia mais “papai” para me sustentar, nem mamãe para me afagar... Perdi-me... Afundei-me profundamente na bebida, perdi o emprego, e enfim, a sarjeta me encontrou.

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