sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Doido Chico (Final)

Vai beber ? – perguntou-me novamente o cara do balcão.

– Não, obrigado monsieur – respondi-o educadamente.

– Mais meu nome é Carlos, rapaz – disse com ar de confusão.

Certo... Não beberei, Carlos – tornei sorrindo.

Enfim não havia sido tão ruim... A sarjeta... Esmolas... E em tantos anos nas ruas eu havia aprendido a ser gente, aprendi a ver o mundo real, aprendi a passar dificuldades, aprendi a sentir fome, frio, medo...  Uma bela bordoada que a vida me deu.
Agora eu via as pessoas como elas de fato são: seres de certezas incertas, fortes fragilidades, perfeitas imperfeições... Não importa quem seja, ou qual classe pertença, cor, ou o que faz. São todas assim.
Bem, eu tinha meu violão de volta, eu o recuperei há um tempo...

Eu estava passando por uma avenida perto daqui – o boteco era como meu astro rei... Eu girava em torno dele, e por mais que eu tentasse me afastar, a gravidade do malte me puxava novamente –, na ocasião eu fedia mais que o normal, pois o sol que castigava aos céus era escaldante, e seu fulgor fazia-me suar... Sempre quis saber donde saia tanta água. Na ocasião, eu voltava com algumas moedas no bolso da velha calça após mendigar ali perto, eu seguia em direção à praça para descansar um pouco, e quando lá cheguei, eu ri. Mirei um caboclo, velho, aparentemente um pouco mais novo que eu – uns cinquenta... Cinquenta e um... –, tocando violão sentado num banco, um maldito violão idêntico ao meu: as quatro cordas, os trastes gastos, o braço levemente curvado... Ponderei... E sim... Era o meu violão!
Fui de encontro ao querido maldito, seus olhos eram negros e esbugalhados, seus era lábios finos, seu cabelo era crespo e grisalho, e sua face maltratada pelo tempo carregava rugas exacerbadas. Abordei-o inocentemente:

– Ei amigo, belo violão, hein chapa! – disse com tom irônico camarada.

– Tu achas? – respondeu-me revelando, pela fineza de sua fala, que talvez fosse um rapaz que um dia foi abastado, como eu.

– Claro, tua estética rustica és poética... – eu não poderia enrolar... – Olha...

– Certo. Certo... Deixe de tolices. O quer de volta? – disse me cortando.

– Sem dúvida, mas como? Espere... – bufei confuso e pensativo.

– Eu dei-lhe a pancada – disse estampando uma faceta com um sorriso de malicia.

– Mas...?! Por que isso?

– Eu passava por aqui quando o vi cantando aquelas coisas; gostei do violão, e decidi roubar-lhe, simples.

– Sem pudores? Desavergonhadamente? – repliquei.

– Claro, amigo, olhe meu estado. Olhe vosso estado! O que há de pudor? Com o que preocupar-se? Eu tive apenas o esforço de dar- lhe o golpe... Ninguém se importa.

Pensei um momento... Ele tinha razão.

– Realmente... Tu és um gênio, admiro sua lógica.

– Obrigado, mas não sou nada. Pegue-o de volta, não me serve mais – disse levantando-se do banco e dando-me o violão, que se encontrava da mesma maneira que antes estava.

Eu de certo modo, deslumbrado pelo pensamento do meu novo “amigo”; sentia-me confuso, não sabendo se o cumprimentava ou o esbofeteava.

– Qual teu nome?

– Zé.

– Zé?

– Não, Antônio.

– Ah, imaginei. O meu é Chico... Exatamente, Chico.

– Prazer em conhecer-lhe, Chico... Vou indo, quem sabe nos encontramos nos becos escuros que a vida reserva para nós, mendigos senhores das ruas... – disse sorrindo, mostrando seus dentes amarelados.

– Até... E... Obrigado pelo violão... – Eu acho...

Acenou-me uma última vez e se foi... Eu ri.

Voltei à realidade, estava outra vez no boteco. Olhei para o relógio, eram quatro e vinte e sete. Levantei e fui até o balcão, chamei Carlos e disse:

– Vou beber .

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