–
Vai
beber fí? – perguntou-me novamente o
cara do balcão.
– Não,
obrigado monsieur – respondi-o educadamente.
–
Mais
meu nome é Carlos, rapaz – disse com ar de confusão.
Enfim não havia sido
tão ruim... A sarjeta... Esmolas... E em tantos anos nas ruas eu havia
aprendido a ser gente, aprendi a ver o mundo real, aprendi a passar
dificuldades, aprendi a sentir fome, frio, medo... Uma bela bordoada que a vida me deu.
Agora eu via as pessoas
como elas de fato são: seres de certezas incertas, fortes fragilidades, perfeitas
imperfeições... Não importa quem seja, ou qual classe pertença, cor, ou o que
faz. São todas assim.
Bem, eu tinha meu
violão de volta, eu o recuperei há um tempo...
Eu estava passando por
uma avenida perto daqui – o boteco era como meu astro rei... Eu girava em torno
dele, e por mais que eu tentasse me afastar, a gravidade do malte me puxava
novamente –, na ocasião eu fedia mais que o normal, pois o sol que castigava
aos céus era escaldante, e seu fulgor fazia-me suar... Sempre quis saber donde
saia tanta água. Na ocasião, eu voltava com algumas moedas no bolso da velha
calça após mendigar ali perto, eu seguia em direção à praça para descansar um
pouco, e quando lá cheguei, eu ri. Mirei um caboclo, velho, aparentemente um
pouco mais novo que eu – uns cinquenta... Cinquenta e um... –, tocando violão
sentado num banco, um maldito violão idêntico ao meu: as quatro cordas, os
trastes gastos, o braço levemente curvado... Ponderei... E sim... Era o meu
violão!
Fui de encontro ao
querido maldito, seus olhos eram negros e esbugalhados, seus era lábios finos,
seu cabelo era crespo e grisalho, e sua face maltratada pelo tempo carregava
rugas exacerbadas. Abordei-o inocentemente:
– Ei amigo, belo
violão, hein chapa! – disse com tom irônico camarada.
– Tu achas? – respondeu-me
revelando, pela fineza de sua fala, que talvez fosse um rapaz que um dia foi
abastado, como eu.
– Claro, tua estética
rustica és poética... – eu não poderia enrolar... – Olha...
– Certo. Certo... Deixe de tolices. O quer de volta? – disse me cortando.
– Sem dúvida, mas como?
Espere... – bufei confuso e pensativo.
– Eu dei-lhe a pancada
– disse estampando uma faceta com um sorriso de malicia.
– Mas...?! Por que
isso?
– Eu passava por aqui
quando o vi cantando aquelas coisas; gostei do violão, e decidi roubar-lhe,
simples.
– Sem pudores? Desavergonhadamente? – repliquei.
– Claro, amigo, olhe
meu estado. Olhe vosso estado! O que há de pudor? Com o que preocupar-se? Eu
tive apenas o esforço de dar- lhe o golpe... Ninguém se importa.
Pensei um momento...
Ele tinha razão.
– Realmente... Tu és um
gênio, admiro sua lógica.
– Obrigado, mas não sou
nada. Pegue-o de volta, não me serve mais – disse levantando-se do banco e
dando-me o violão, que se encontrava da mesma maneira que antes estava.
Eu de certo modo,
deslumbrado pelo pensamento do meu novo “amigo”; sentia-me confuso, não sabendo
se o cumprimentava ou o esbofeteava.
– Qual teu nome?
– Zé.
– Zé?
– Não, Antônio.
– Ah, imaginei. O meu é
Chico... Exatamente, Chico.
– Prazer em
conhecer-lhe, Chico... Vou indo, quem sabe nos encontramos nos becos escuros que
a vida reserva para nós, mendigos senhores das ruas... – disse sorrindo,
mostrando seus dentes amarelados.
– Até... E... Obrigado
pelo violão... – Eu acho...
Acenou-me uma última
vez e se foi... Eu ri.
Voltei à realidade, estava
outra vez no boteco. Olhei para o relógio, eram quatro e vinte e sete. Levantei
e fui até o balcão, chamei Carlos e disse:
– Vou beber fí.

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